domingo, 30 de abril de 2017

O 7x1 de hoje foi contra as mulheres

Cristine Severo é Graduada e Mestre em Letras pela UFRGS e Graduanda em Ciências Sociais pela UFRGS e Professora da Rede Pública em Novo Hamburgo - RS












                   O 7x1 de hoje foi contra as mulheres





                              O 7x1 de hoje saiu cedo, num domingo bonito aqui em Porto Alegre, com sol, temperatura amena, ótimo para aproveitar o dia. Mas então saiu a entrevista de temer, o pequeno, dizendo que os governos precisam ter marido para que não quebrem. É um 7x1 todo dia. 


                                    O que temer, o pequeno, se esqueceu é que em toda a história da humanidade ocidental que se tem conhecimento até hoje, os maridos estavam no governo. Quem estava no governo quando houve a crise de 1929? Um marido, e vejam só, os países quebraram. Quem estava no governo nas históricas crises de fome e miséria que assolam a Terra desde sempre? Veja só, os maridos também. Quem estava no governo na crise de 2008 e na quebra de muitas economias? Os maridos também! Quem estava no governo nas duas grandes guerras, ou em tantas outras guerras, que quebraram tantos países? Mas não pode ser, os maridos também!! Que engraçado que ninguém disse em 1929: “claro, tinha que ser um homem no governo pra quebrar a economia desse jeito! Homem não entende nada de política!”. Mas quando há uma mulher no governo, o primeiro deslize e todo mundo: “tinha que ser uma mulher”.

                                    Mas a entrevista só piora. Temer, o pequeno, compara a economia de um país com a economia doméstica. Segundo ele, uma esposa não pode gastar mais do que ganha o marido, ou ela vai quebrar o marido. Temer, o pequeno, não tem a menor noção de qual país ele está governando. Ele simplesmente não conhece o Brasil. Ele acha que ele está governando uma casa grande e que todos ao redor são seus servos. 

                                 Temer ignora completamente os dados do IBGE que falam que até 2014 eram 40% de famílias no Brasil chefiadas por mulheres. Ignora também outra pesquisa do IPEA que afirmava que em até 2010 o número de mulheres era de 49% da população economicamente ativa. 

                           Nosso atual presidente não reconhece que mulheres são parte integrante da economia que ele mesmo quer salvar, não reconhece que mulheres não dependem mais dos seus maridos para sobreviver, não reconhece o país que ele governa. Ele não reconhece que as mulheres trabalham, ganham seu próprio salário e gastam como elas decidirem gastar, sem ter que dar contas disso para ninguém. 

                                E mais, com essa fala, ele pressupõe que todas as mulheres têm que ter um marido! E um marido que as sustente! Ele acha que o Brasil ainda é uma enorme casa grande e que todo mundo vive como ele e a sua esposa. O cara não tem a menor noção da realidade pra fora dos seus portões. E é a ele que está confiado gerir e governar essa realidade que ele desconhece. Como ele pode supor que é capaz de uma tarefa dessas? 

                                Sempre que estamos avançando um passo em direção à conquista de mais direitos e respeito para as mulheres, voltamos dois quando temos que ouvir um absurdo desses. Mas o que esperar de um cara que, no dia da mulher, afirma que o valor da mulher na sociedade é saber o preço das coisas no supermercado. Que vergonha nacional e internacional de esse cara ainda existir.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O gato em frente ao espelho...

Sérgio Pires - Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, bacharelando em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.








O gato em frente ao espelho...




                            O dia 28 de abril deste ano ficará marcado na história como um dia de luta, de mobilização da classe trabalhadora, seja através de entidades sindicais ou por inciativa própria, trabalhadores e trabalhadoras tomaram as ruas de diversas cidades do país.

                       Toda essa mobilização gerou muita simpatia entre a população, afinal tratava-se de uma luta pelo bem do coletivo, porém também gerou descontentamento...o que ficou muito evidenciado nas redes sociais, onde um grande número de postagens eram de apoio as mobilizações, assim como um grande número eram contrários, tecendo comentários e críticas. Mas o que me chamou a atenção, e é o que quero abordar neste artigo, é um tipo bem específico de ator social, que em nome da busca de uma maior produtividade e uma busca por lucros maiores, desqualifica as lutas de hoje, rotulando aqueles que estão participando dos movimentos de protestos como “vagabundos”, “vândalos”, e assim por diante. Me refiro a aqueles que possuem pequenos negócios, em grande parte do setor de prestação de serviços, e que se julgam pertencer a um outro estrato social, se auto-atribuindo o título de “empresário”.

                    A imagem do gato olhando no espelho, e no reflexo aparece um leão, onça, tigre ou outro felino maior, é muito comum em mensagens de auto-ajuda ou em mensagens motivacionais. Atribui-se um significado de superação de limites, exaltando a imensa força interior que todos temos. Contudo, para o contexto que estou abordando aqui, faremos uma outra interpretação desta imagem...

                   Dentre tantas postagens que circularam pela minha timeline no dia de hoje, uma delas me chamou a atenção e me fez refletir muito sobre o que li. Um dos meus amigos postou um texto atribuído ao dono de uma grande rede de fast-food...neste texto o autor fez algo como um desabafo, falando sobre as dificuldades de um empresário em manter suas empresas lucrativas com tantos impostos a serem pagos, inclusive tecendo duras críticas a CLT, e ao alto custo das ações trabalhistas, etc. No fim do texto ainda havia um desafio para quem quisesse de fato conhecer as dificuldades em ser empreendedor no Brasil.


                  Mas o que chamou muito a minha atenção foi a frase que este meu amigo escreveu ao compartilhar: “Esse falou por mim...”. Confesso que fiquei perplexo quando li, sem compreender muito bem o que de fato estava em jogo, tanto com a postagem quanto a frase utilizada por este amigo. Pois bem, depois de muita reflexão, creio que pude desenvolver um diagnóstico desse quadro.

                        Quando pensamos no sentido da frase: “Esse fala por mim...”, pensamos em representatividade, em representação...mas quem representa quem de fato? A quais grupos ou estratos sociais pertencem, tanto o suposto autor quanto quem simpatizou com a frase? Que imagem reflete no espelho?

                        Creio que devemos fazer algumas considerações a respeito disso. Uma das questões que sempre resultam em grandes discussões é justamente esse sentimento de pertencimento a grupos, mas que não são os grupos que de fato pertencem esses atores sociais, ou seja, quando vejo micros e pequenos empresários, defendendo pontos de vista adotados por grandes grupos empresariais, percebo o quanto isto é equivocado, uma vez que há uma grande distância social entre esses mundos, que são muito distintos, não apenas pensando em tamanho ou faturamento, mas também pensando em outras distinções entre esses grupos, tais como capital social e cultural.

                       A comparação entre aquele pequeno empreendedor, para usar um termo mais moderno do capitalismo, e os grandes empresários é muito injusta e inadequada se pensarmos principalmente nas isenções fiscais que grandes grupos empresariais recebem dos governos municipal, estadual e federal, ao passo que os micros e pequenos tem uma pesada carga tributária a pagar, tornam-se muito difícil manter essas empresas abertas em muitos casos.

                      E apenas possuir uma empresa não eleva o ator social a outra classe, não garante o pertencimento a outro estrato social, inclusive não sendo aceito nos mesmos espaços sociais que os grande empresários, pertencentes as classes mais abastadas do país frequentam, tanto pela seletividade destes lugares quanto pelo alto custo.

                     Outro fator que cria a ilusão de pertencer a uma classe social mais alta, são os bens de consumo. Ora, se o aumento das receitas permite que esses pequenos empresários possam comprar bens como carros, eletroeletrônicos, etc, ainda assim existe um grande abismo entre aqueles que vendem sua força de trabalho e os que possuem os meios de produção. Ou seja, uma vida confortável mas que se baseia ainda em seu trabalho, uma vez que muitos desses pequenos empresários tem uma rotina árdua na condução de seus negócios, é uma vida de trabalhador, como tantos outros que, seja no serviço público ou empresas privadas, com bons salários, são trabalhadores de qualquer modo.

                  A escolha da imagem do gato em frente ao espelho, aqui ganha contornos e significados diferentes, uma vez que, assim como o gato que se olha no espelho e enxerga um leão, muitos pequenos e micro-empresários veem a si mesmos como pertencentes ao grupo dos grandes empresários, das grandes corporações, e essa interpretação não deve jamais ser confundida com uma crítica destrutiva, mas sim o contrário, uma vez que a grande força desses pequenos e micros é verificada quando analisamos que estas empregam um grande número de outros trabalhadores, são geradores de emprego e renda, e justamente por esse viés é que devem perceber que essa grande força reside na união da classe trabalhadora para poder fazer frente contra os objetivos das grandes corporações, que sempre visam o lucro do que qualquer outra coisa, inclusive com a saúde física e mental dos seus empregados, e com o desenvolvimento dos centros urbanos.

                       Apesar de gostar de gatos, faço uma sugestão aos amigos micro e pequeno empresário: ao se olhar no espelho, não veja os grandes empresários que não representam nada e ninguém que não seja os seus interesses, mas veja quantos trabalhadores iguais a você estão ao teu lado, pois é a força do trabalho deles que faz com que você tenha sucesso.

O navio a deriva onde os marujos se dividem entre navegar e combater os capitães do mato que se espalham pelo convés diante do olhos felizes da elite que está em terra firme


Daniel da Luz Machado é Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela UFRGS.



O navio a deriva onde os marujos se dividem entre navegar e combater os capitães do mato que se espalham pelo convés diante do olhos felizes da elite que está em terra firme




A grande paralisação convocada pela greve geral no dia 28 de abril, que ainda ocorre no momento em que escrevo, me instiga profundas reflexões.

          Penso sobre o papel social desempenhado nos últimos anos pela corrente ideológica mais progressista em relação a políticas públicas e que se define como “esquerda”, da qual faço parte, de que maneira muitos de nossos representantes deixaram-se absorver pela institucionalidade, a ponto de apostarem muito em jogos políticos, que embora algumas vezes necessários, acabam flertando perigosamente com representantes de um status quo outrora veementemente combatido e que de forma alguma permitiriam avanços sociais imperiosos em uma sociedade tão desigual quanto a brasileira.

          O verdadeiro e criminoso desmonte da legislação trabalhista e previdenciária que repassa aos mais pobres e vulneráveis a conta de gestões que coniventemente embricaram-se com grandes desvios, mas que em hipótese alguma pertenceram a um único partido, como desonestamente a Rede Globo e seus comparsas atribuem, transforma-se em um dos maiores se não o maior ataque a classe trabalhadora no Brasil.

          Os trabalhadores da indústria privada que entenderam a necessidade de parar e lutar pelos seus direitos, mas que não puderam realizar em razão de ameaças e risco de perda de emprego, o que fere diretamente a constituição que assegura o direito a greve e somente em razão disso tentaram e outros conseguiram comparecer em seu local de trabalho, isso eu entendo perfeitamente. Mas os funcionários públicos que foram contra a paralisação? Os funcionários públicos que aproveitaram para descansar e não sair de casa encarando o dia de hoje como uma folga? Os trabalhadores autônomos que passavam com seus carros particulares verbalizando xingamentos? Os que incautamente acreditam que a manifestação de hoje era meramente política na tentativa de defender o Partido dos Trabalhadores (PT)? Os que enxergam com viés reducionista sem manifestar a menor consciência de classes? E uma parcela da classe média que não percebe que a médio prazo estará mais empobrecida com essas medidas e perderá o seu amado “padrão de consumo”? E os incautos que não formam uma opinião consistente embasada em leituras e observações apropriadas e depois repetem o mantra “É a minha opinião”?

Manifestação em frente a empresa de transportes coletivo Soul em Alvorada-RS

          Dentre as reflexões que no inicio do texto citei que havia sido instigado, essa é uma das mais preocupantes. Com a plena consciência da construção social, me indago e repasso essa indagação de como em termos práticos poderemos ajudar a libertar muitos de nossos pares desse comportamento tipico de “Capitão do Mato”? Como dialogar com quem não quer ouvir? Como demonstrar que a realidade a qual muitos foram inseridos é um mero apêndice da construção social coletiva que faz questão de demarcar territórios nas esferas decisivas, mas que vende esse falso discurso de que uma renda média ou alta te faz pertencer a uma classe que não te quer, a não ser como verdadeiramente MASSA DE MANOBRA!!!

          Quem não detém os meios de produção, mas age como tal não é rico, é apenas um capitão do mato do século XXI infiltrado em um navio a deriva e prejudicando os marujos que lutam para salvar a embarcação. E tudo isso sob o olhar feliz da classe dominante que se regozija em terra firme.

Com o companheiro de lutas pela educação e colaborador do Blog Humanidades em debate Professor Eduardo Schutz.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

MULHERES E VIOLÊNCIA

Letícia Roxo é Licenciada em História pela FAPA, professora da Rede Pública Estadual.











MULHERES E VIOLÊNCIA

             O mundo contemporâneo está cada vez mais moderno, desenvolvendo e aprimorando conceitos, teorias e técnicas. Em todas as esferas da vida pública ou privada vemos avanços significativos. A ciência é um bom exemplo disto.

            Durante o século XX os avanços tecnológicos foram gritantes. A guerra fria foi um incentivador para que isso ocorresse, a disputa por hegemonia entre capitalistas e socialista fez avançar as pesquisas e descobertas, principalmente, na ciência, armamentos, farmacologia. Embora esses avanços sejam usados para a guerra, para impor o poder de um sobre outro.

            A mulher no século XX também foi ganhando seu espaço social, embora fosse para suprir uma necessidade capitalista e não por reconhecimento da sua condição humana de igual.  Embora tenhamos conquistado espaços antes apenas ocupados por homens, e os ocupassem com tamanha ou mais competência ainda lutamos por igualdade, por reconhecimento, por direitos.

            E essa desigualdade que se dá em várias esferas da vida, tais como: financeira, social, física, sexual e etc. ela é gerada pela ideia de superioridade masculina. O homem concebeu, e perpetua isso de geração para geração de que é superior a mulher. Portanto se é superior exerce poder sobre ela.

            E essa superioridade masculina (infundada, ilegal, insana) gera a violência contra mulher. Essa violência é moral, física, psicológica, doméstica, empregatícia... justificada pela lógica masculina de que é melhor, superior e dono do corpo, da mente, da vontade da mulher.

            Embora, hoje, muitas mulheres já reconheçam a sua condição humana de igual para com os homens e lutem contra cada e qualquer tipo de abuso sofrido e cometido pelo gênero masculino, ainda é muito comum ver mulheres tão fragilizadas pela violência, seja ela de qualquer tipo, que se colocam como culpadas e justificam a violência sofrida. O fato de ser mulher não é motivo de violência. Lutemos, sempre, contra isso.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Farinha pouca, meu pirão primeiro...

Sérgio Pires - Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, bacharelando em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul








    Farinha pouca, meu pirão primeiro...(Ou o individualismo da classe trabalhadora brasileira)


            A terceirização das atividades-fim é sem dúvida um dos assuntos mais discutidos em se tratando da conjuntura da política nacional atual, contudo, já tramitava no complexo sistema burocrático das casas legislativas federais. O cenário que se formou a partir dessas reformas foi de intensa luta, chamada por diversos sindicatos e entidades de classe profissional, articulando junto aos seus representados para tentar barrar essa e outras reformas trabalhistas que, sem dúvida, aliada a reforma da previdência, atingirão toda a classe trabalhadora nos próximos anos. Mas, e quando a terceirização somente era possível nas atividades-meio? Por que determinadas classes de trabalhadores podem ser aviltados em seus direitos sem toda essa comoção nacional?

          Sou servidor público estadual da Secretaria de Educação, e na minha jornada de 13 anos, lotado em escolas públicas, tive o desprazer de ouvir muitos professores e professoras tecendo duras críticas aos colegas (sim, colegas servidores públicos, mesmo que isso faça torcer o nariz de muitos professores e professoras) do quadro de funcionários de escola, especialmente aos que cumprem as funções de manutenção e merenda escolar. Em um sem número de vezes ouvi coisas como: “...na época da EBV – empresa terceirizada – eram bem melhor...”, “...se fosse de empresa privada já estavam na rua...”, “...na época da terceirizada a escola vivia brilhando...”, e muitos outros comentários do tipo.

          Pois bem, o que há por trás desse discurso? Há quem possa dizer que se trata apenas de observações, críticas referentes a execução destes serviços, mas quando se pensa que, estes trabalhadores vivem sobre pressão do terror do desemprego, de perder sua minguada renda, tão somente pela simples queixa de uma diretora descontente, e que, em muitos casos, esses trabalhadores, pais e mães, nem ao menos podem cuidar de seus filhos doentes sem serem demitidos por faltarem ao trabalho, mesmo com justificativa.

           Essa é uma discussão que nunca foi abordada, pois, como diria Bertold Brecht em seu poema:

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

           Pois bem, enquanto somente limpeza, portaria e cozinha eram terceirizados, tudo bem, afinal muitos dos que faziam as reclamações e exaltavam as empresas terceirizadas não faziam parte dessas classes de trabalhadores, mas...agora que as atividades-fim podem também ser terceirizadas? Como explicar toda a comoção e mobilização que se verifica sobre o tema então? Não será essa uma maneira de tentar “não ser levado” sem as pessoas se importarem? O que explica esse comportamento do trabalhador médio brasileiro?

          Muito pode ser explicado esse comportamento se pensarmos em como somos incentivados a sermos competitivos, a pensarmos somente em nosso sucesso pessoal, em buscarmos cada vez mais conquistas que mostrem nossa capacidade individual, e de como eu consigo “descer para o asfalto” através dos meus próprios méritos. Nossa formação enquanto cidadãos é fomentada em grande parte pelas premissas do capitalismo e do “American Dream”. Em toda nossa formação, e neste sentido não falamos apenas da escola mas também de todos os aparelhos ideológicos como televisão e outras mídias, somos formatados a pensarmos de modo único e exclusivamente individual, sem jamais pensarmos no coletivo, no grande grupo.

           E essa formação cria pensamentos iguais a desses colegas, que antes de verem sua classe trabalhadora ameaçada, não faziam nenhuma menção a exploração de outros trabalhadores, ressaltando inclusive a “eficácia” de um sistema de trabalho que se aproxima da a servidão dos feudos, da escravidão, onde homens e mulheres trabalhadoras não tem sua mão de obra negociada por terceiros que visam apenas o lucro em cima da exploração dessa mão de obra.

           Paulo Freire nos alertava que, quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é tornar-se opressor, e isso fica claramente evidenciado quando, em ataques a determinadas classes trabalhadoras, outras classes não se articulam em prol das classes atacadas, fica em suas zonas de conforto, trabalhando cada vez mais sonhando em promoções ou salários mais altos, ou, no caso dos servidores públicos, confortáveis em sua estabilidade.

            Pois bem, o que se vê agora é um panorama de grandes lutas que se avizinham, direitos trabalhistas conquistados com muito esforço estão prestes a serem desmantelados, as oligarquias tradicionais, ruralistas e mega-empresários unidos pela destruição da CLT, articulando dentro das esferas de poder com representantes do executivo. Esse é um cenário que nos mostra o quanto se faz necessário a união da classe trabalhadora, de TODA a classe trabalhadora, para lutar unida contra todos esses ataques, especialmente dos ataques que vem das grandes mídias comprometidas com os poderosos, que valendo-se de seu alcance, classificam e rotulam protestos legítimos como atos de vandalismo, o que faz com que o trabalhador, que está no ônibus ou no seu carro, parado em um congestionamento, não veja a si mesmo refletido naquele protesto, não se identifica com a causa, e só pensa em chegar no seu trabalho para não ser demitido ou ter outros problemas com seus patrões.

            Deslegitimar a luta é um dos principais instrumentos utilizados, tanto pela mídia quanto pela classe conservadora, atrelando a esses atos notícias maliciosamente elaboradas para que o cidadão comum construa em seu entendimento a imagem de que todo o protesto é bagunça, alia-se isso a forte repressão das forças de segurança, que na verdade não defendem a população, mas sim o capital, e isto comprovamos, tanto nas coberturas jornalísticas, que se apressam em mostrar o trânsito interrompido ou algumas vidraças quebradas, quanto pela própria opinião pública, que louva as ações repressoras do Estado contra os protestos, e isso nos mostra o quando nos falta consciência de classe, de coletivo, pois desvinculamos todas as lutas com a nossa própria condição de trabalhadores, e essa questão ainda é mais forte quando nos referimos aos micro-empresários, em geral ligados ao terceiro setor, que também vendem sua força de trabalho, mesmo empregando outros trabalhadores, mas que pensam pertencer ao empresariado, sem levar em conta que, sem possuir os meios de produção e pertencer a classes sociais abastadas jamais serão considerados como iguais.

               O que nos falta, enquanto trabalhadores, é construirmos um espírito de corpo, uma consciência de classe, e que tenhamos em mente que, se não possuímos os meios de produção, somos proletários, trabalhadores, todos nós, e o destino de uma classe de trabalhadores pode vir a influenciar a todos as demais, logo a necessidade urgente de unificarmos todos em prol da luta, da defesa dos direitos trabalhistas, para que dessa maneira possamos fazer frente aos ataques que estão nos impondo e os que ainda irão nos impor. Em tempos de farinha pouca...que o pouco seja de todos!



BREVE RELATO SOBRE A CRIAÇÃO DO CURSINHO POPULAR MINERVINO DE OLIVEIRA EM ALVORADA


Rafael Freitas, Historiador Alvoradense, Membro fixo do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata e Comunicador da Rádio Comunitária a Voz do Morro










BREVE RELATO SOBRE A CRIAÇÃO DO CURSINHO POPULAR MINERVINO DE OLIVEIRA EM ALVORADA

          Eis que em dezembro de 2016 surgiu a ideia de criar um cursinho pré vestibular popular em Alvorada, depois que essa cidade teve a experiência similar com o chamado Zumbi dos Palmares. E no mesmo lugar, na União das Associações de Moradores de Alvorada. Era uma conversa para a minha pesquisa sobre Luis Carlos Solim e sobre outras questões envolvendo política, como o início da criação do ativo do Coletivo Negro Minervino de Oliveira na cidade, quando o Sr. Raul Pereira perguntou “Porque vocês não fazem um cursinho na UAMA?”. 

           Unindo todas as ideias, entre conversas com o pessoal da UAMA, de cursinhos como o próprio Zumbi dos Palmares, Esperança Popular da Restinga em Porto Alegre, entre outros momentos de ricas reflexões e debates, os dois membros iniciais do Coletivo organizaram uma primeira formação aberta tendo em vista a formação da equipe de organização do cursinho.
            A formação ocorreu em 19 de janeiro de 2017 e teve como palestrante o militante da Resistência Popular professor Pablo, que abordou a importância da inserção no ensino superior para as classes populares. A próxima formação abordou os Panteras Negras. E muitas outras ocorrerão, pois o Coletivo está aberto a todos os que também lutam contra o racismo e pela pauta histórica das lutas de classe em Alvorada, que é confrontar a discriminação econômica que somente será abolida quando nossa sociedade não se dividir em classes sociais.
          O primeiro nome pensado para o cursinho foi Luis Carlos Solim, um ainda ilustre desconhecido para a população alvoradense. Mas ao ouvir um pouco sobre a trajetória de Minervino de Oliveira, o sr Raul, que faz parte da diretoria da UAMA, foi aluno e um apoio na coordenação do cursinho Zumbi enquanto esteve ali na UAMA por cerca de três anos, foi um entusiasta em dar esse nome para o cursinho popular. Sugestão aceita por mim e por Rafael Melo. O próximo passo foi produzir o logotipo.
          Todos os participantes do cursinho são voluntários e possuem ligação sentimental com Alvorada, almejando que a solidariedade não seja mais apenas os dizeres do pórtico de entrada na cidade, mas uma realidade. Foram estabelecidos os valores do cursinho, como o combate ao racismo, ao machismo, a discriminação religiosa e econômica. Bem como foram também definidos os seus deveres, de promover debates e atividades que reforcem o papel do cidadão; de empoderar alunos e alunas para que eles ocupem seus espaços de direito, dentro e fora de Alvorada; de promover o diálogo entre alunos sobre atualidades, direitos do cidadão e o debate político, para cada estudante exercer a cidadania de forma prática; instigar o debate sobre minorias e cultivar o respeito ao próximo; respeitar os espaços de fala de cada um e incentivar a participação coletiva.
          O Coletivo Negro Minervino de Oliveira alvoradense hoje possui seu secretariado, sempre visando estimular o surgimento de novas lideranças comunitárias. E o Pré Vestibular Popular Minervino de Oliveira hoje tem definida a sua equipe de organização, formada por um diretor geral, uma coordenação administrativa e uma coordenação pedagógica. Aonde seus integrantes não são todos do Coletivo Negro, que não é dono do cursinho. Não há um dono, como se o cursinho fosse uma propriedade privada. Além disso, pode-se dizer que também não há hierarquias, mas divisão de tarefas, aonde todos se ajudam. A instância máxima é a reunião geral, aonde há debates, votações, definição de tarefas, e as decisões coletivas são mais importantes do que as opiniões pessoais. O lema do cursinho: é popular, é nosso!
          Muitos dos membros da equipe de organização estiveram presentes desde a primeira reunião, como Fabiano Soria Vaz, Fabiano Boldrini, Davi D’Ávila Souza, Diuliane Andrade, Marcito Luz e Catiana Leite. Popular desde a sua organização portanto, o cursinho quando estava com vagas abertas para candidatos a fazer parte do seu alunado colava cartazes por Alvorada com os dizeres:“Já pensou em fazer faculdade? Estão abertas pré inscrições para interessados em fazer cursinho pré vestibular popular em Alvorada. As atividades serão realizadas na sede da UAMA- Tobias Barreto, 324, Bela Vista, Alvorada-RS (próximo à praça central) no turno da noite.”
          Tivemos mais de uma centena de interessados. Surgiram novas preocupações e passamos a buscar uma sede mais adequada para atender a essa demanda por cursinho popular em Alvorada. Chegamos ao Instituto Federal do Rio Grande do Sul, campus Alvorada.

 Foto da primeira reunião para divulgar a ideia de criar o Pré Vestibular Popular Minervino de Oliveira
          Na primeira aula, tivemos 51 alunos, que passaram a vivenciar experiências de educação popular. Eu afirmei, durante a minha fala na aula inaugural, ocorrida dia 17 de abril, que a educação popular seria a nossa utopia. Pois eu reflito muito se será possível uma educação popular de verdade em uma sociedade capitalista como a nossa aonde se insere Alvorada? O que envolve educação popular deverá ser tema de eventos ligados ao cursinho, mas enquanto isso, ela continuará sendo o nosso rumo. Quiçá o nosso alunado possa ano que vem, dentro do ensino superior, ensinar o que é educação popular, bastando apenas descrever o que viveram desde dia 17 de abril. Mês que é histórico para Alvorada.

 Fotografia tirada no primeiro dia de aula com os estudantes e parte da equipe de organização do cursinho popular Minervino de Oliveira
          O cursinho Minervino de Oliveira não deve ser um modelo para as experiências que virão, mas um cursinho popular entre outros como Transenem, Dandara, Colep, Território Popular, Zumbi dos Palmares, Lima Barreto, e diversos outros. Cada lugar e tempo tem as suas características e nenhum cursinho deve ser mera cópia de outro. Como o Minervino de Oliveira não está sendo uma mera reprodução, mas sim uma criação sem recalque e sem duplicata. 

          Com polígrafo autoral, camiseta com estética própria, que estarão movimentando a nossa história. Somos homens, mulheres, negros, brancos, católicos, de terreiro, ateus, de Alvorada, de Cachoeirinha, entre muitas outras variedades, todos da classe trabalhadora, organizados para inserir a periferia no ensino superior. Pois a periferia de Alvorada provou que quer estudar! Esse objetivo está sendo alcançado, pois o Instituto Federal do Rio Grande do Sul, campus Alvorada, é um espaço que abriga desde ensino médio até mestrado. Estamos  bem unidos fazendo a luta por meio da educação, em um cursinho sem amos, o Minervino de Oliveira!
           Encerro esse relato particular dizendo muito obrigado a companheirada: Rafael Melo, Marcito Luz, Debora Quadros, Matheus Kucharski, Lahis Brandão, Jhosi, Davi, Diuli, Edison, Lucas Morone, Janice, Leandro, Vanessa Matos, Fabiano Vaz, Fabiano Boldrini, Ana Paula Preto, Catiana Leite, Ana Paula Santos, Jairo Silva, Grazi Rodrigues, Kethlyn Martinez, Lucas Costa, Andreia Raupp, Julia Gomes, Wagner Cardoso. Christian. O grupo é grande e não acaba aqui. Todos com o mesmo objetivo, o cursinho popular Minervino de Oliveira, que não deve por questão de justiça ser o cursinho desse ou daquele indivíduo. Os nomes abaixo também fazem parte desse grande coletivo, e muito obrigado a cada um. Como todos nós temos nossas tarefas, a primeira deles é estudar! A segunda é também estudar!



quinta-feira, 13 de abril de 2017

A perda do senso crítico e a massificação nociva dos discursos inconsistentes




Daniel da Luz Machado é Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela UFRGS







A perda do senso crítico e a massificação nociva dos discursos inconsistentes

          Confesso com muito pesar o meu temor em relação ao título dessa reflexão. O quadro global, mas buscando um recorte apenas do nosso país para não nos estendermos muito, vem sendo permeado por um contexto turbulento.

          Desigualdade social em grande crescimento, recessão econômica, hostilidades crescentes a grupos minoritários, crise política e institucional, enfim um quadro que dá força para quem traz em suas análises um viés pessimista, ou simplesmente realista para alguns. 

          O Grande Escritor Umberto Eco disse uma frase contundente e muito polemizada que “As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis” , sem entrar no mérito ou juízo de valor dessa afirmativa, atrevo-me a usar essa frase como um ponto de partida reflexivo de como as tecnologias podem influenciar determinadas partes do coletivo, principalmente os que anseiam por protagonismo social, a formatarem suas opiniões e seus conhecimentos sem aterem-se aos veículos e a mecanização adequada para constituição adequada da sua opinião.

          O saber é plural em suas manifestações, advém tanto do empirismo cotidiano, da oralidade popular, da academia, mesmo que essa se distancie em determinados momentos do povo. E é justamente esse saber que vem da ciência, principalmente das humanas que detém a incumbência de refletir sobre a sociedade, que está sendo suprimido em todos os segmentos sociais.

          Dentro das próprias academias, cursos que também fazem ciência, mas não com intuito de refletir a sociedade, são os primeiros a desconsiderar quem se dedica a essa temática, talvez por isso Médicos recentemente formados repitam gestos constrangedores e machistas ao extremo em suas redes sociais, grupos de outros cursos hostilizem negros e índios nos campus que frequentam, enfim o que se passa na academia que deveria ser o berço do pensar e da pluralidade causa uma grande perplexidade.

          O cidadão fora da academia, envolvido com a labuta diária e o seu cotidiano, sem quase nada de tempo cedido pelo “Deus do Capital”, conhecido pelos nomes “Exploração dos empresários”, “Necessidade absurda de consumo” “Em busca de maior status”, e com doses nocivas e homeopáticas de “Jornal Nacional”, “Globo News”, “Revista Veja”, “Reality Shows variados” formará o conteúdo das suas opiniões de que forma?

          Livros ou leitores digitais beiram ao ultraje, não são mais necessários, basta seguir algum youtuber e de preferência nem assisti-lo na íntegra, a final basta compartilhar aquela postagem editada de 3min, aliás editada por alguém que tem interesses que o cidadão sequer entende. E nesse mosaico de informações fragmentadas e que passam léguas de uma boa leitura, de uma boa consulta, forma-se aquela frase que praticamente transformou-se em um mantra:

"É A MINHA OPINIÃO! EU NÃO CONCORDO E PRONTO. Seu petralha…, Seu coxinha…"

          Estamos nos encaminhando cada vez mais para um anacronismo, um reducionismo, uma dicotomia infrutífera, por que não lemos, não estudamos e apenas ouvimos o que nos interessa e encontra respaldo em nosso senso comum.

          Grande parte da sociedade que se ofendeu com a frase de Umberto Eco, legitima a colocação ao se comportar dessa maneira e talvez por isso em muitas timelines os discursos de um cidadão homofóbico, machista, racista como o Deputado Bolsonaro ganhem assustadoramente grande repercussão em todos os extratos sociais e agora em algumas camisetas estampadas. Eu já tive o desprazer de cruzar com alguém na rua vestindo tal peça de roupa

          Infelizmente, onde a leitura crítica se ausenta, cria-se terreno fértil para lideranças desse quilate, cria-se o ambiente perfeito para proliferação do pensamento reacionário, do desrespeito ao próximo e a si mesmo, da imposição de questões religiosas sobre decisões políticas e perpetua-se acima de tudo o direito quase divino das elites continuarem pisando em cima do povo, povo esse, que paradoxalmente para sentir prazer em ceder suas costas como tapete e compartilhar suas ideias embasadas em castelos de areia diante da onda que se aproxima.

sábado, 8 de abril de 2017

13 reasons why (Netflix) - Uma perspectiva de gênero


Cristine Severo é Graduada e Mestre em Letras pela UFRGS e Graduanda em Ciências Sociais pela UFRGS e Professora da Rede Pública em Novo Hamburgo - RS

13 reasons why (Netflix) – Uma perspectiva de gênero

* Contém spoilers
* Aviso de gatilho: o texto contém relatos de violência física, psicológica e sexual (estupro).

13 reasons why é a mais nova série da Netflix, mas também é um livro escrito por Jay Asher. A série conta a história de Hannah Baker, uma adolescente que está no segundo ano do ensino médio. Desde o início da série, nós ficamos sabendo que Hannah se suicidou e a história é contada intercalando momentos do presente (pós suicídio) e do passado (antes do suicídio). Antes de cometer suicídio, Hannah grava 13 fitas explicando as 13 razões que levaram-na ao suicídio. A série conta com uma narradora, Hannah Baker, que narra através das fitas, e um personagem principal, Clay Jensen, o número 11 das fitas.
A série abre margens para infinitas discussões: bullying, suicídio, depressão, o sistema escolar, adolescência, etc., mas também é possível fazer uma leitura de gênero, pois muitas das coisas que Hannah relata ao longo das 13 fitas ocorreram com ela apenas pelo fato de ela ser uma garota. Já na primeira fita Hannah nos conta como tudo começou: em um encontro com um garoto (Justin). Eles estão em um parque e ele tira uma foto dela descendo do escorregador. No dia seguinte, ele mostra a foto aos amigos, dando a entender que ele e Hannah teriam feito mais do que apenas se beijado. Um dos amigos espalha a foto para toda a escola e Hannah passa a ser a “vadia” da escola. Uma das lembranças mais especiais de sua vida – o primeiro beijo – fora arruinada no dia seguinte. Este fato representa a diferença entre a vida sexual masculina e feminina em nossa sociedade. Ambos estavam no parque, ambos fizeram as mesmas coisas, mas apenas um lado é julgado e condenado: a garota.
A sexualidade feminina é controlada desde sempre, enquanto a masculina usufrui de todas as liberdades possíveis. Na adolescência isso é muito latente. Garotos não são julgados quando utilizam desta liberdade. Enquanto garotas, se fizerem exatamente o mesmo que um garoto já fez tantas vezes, terá sua vida sexual controlada, julgada, apontada e surrupiada pelos demais. Será motivo de humilhação, piadas, xingamentos. Será a “vadia” da turma. A fácil. Por que essa diferença de tratamento para homens e mulheres? Por causa do patriarcado e da cultura machista de nossa sociedade que não enxerga na mulher um sujeito com desejos e vontades, mas sim um objeto a serviço do prazer masculino. À mulher a clausura, ao homem o mundo. Quanto mais uma mulher expõe sua sexualidade, mais abjeta ela se torna. Essa dupla moral ainda é sustentada hoje, na criação dos filhos. Meninos são criados para atacar, meninas para se defender, como se a arena sexual fosse uma luta, onde o homem que abater mais mulheres sai campeão e todas as mulheres perdem. O próprio ato sexual ainda é visto como uma batalha: um dominador e uma dominada. Garotos ainda se vangloriam quando conseguem transar com uma garota! Eles não pensam que esta garota também estava com vontade de transar com ele, garotos pensam que eles a “conquistaram” ou a “seduziram” e isso é motivo de comemoração. O sexo não é visto como um momento a dois, como uma relação horizontal de troca.
O que é preciso, em primeiro lugar, é melhorar a educação de nossos meninos. Educá-los para reconhecer nas mulheres um sujeito pensante e desejante, um ser humano ao qual devemos cuidar. Quantos de vocês se identificaram com Justin durante a série? Este é o primeiro aviso de que é hora de mudar sua postura em relação às mulheres.
Um segundo momento da série ocorre quando Alex faz uma lista das melhores e piores da escola. Hannah venceu a lista como melhor bunda. Como ela própria afirma na série: isso a tornou um alvo para os demais garotos. Ela passa a sofrer assédios nos corredores. Um dos personagens, Bryce, apalpa sua bunda e faz comentários obscenos para ela. Aqui fica expresso o quanto a objetificação do corpo feminino já está completamente internalizada na adolescência. As garotas da escola foram avaliadas, julgadas pelos garotos e receberam notas de acordo com seus atributos físicos. Nem o personagem de Clay, que é diferente dos outros garotos, conseguiu entender o por quê de Hannah ter ficado chateada com aquilo, afinal, segundo ele, era até um elogio. Garotos não entenderam que Hannah se sentiu como um objeto leiloado com essa lista. Ela perdeu sua humanidade e se tornou apenas seu corpo.
Garotos objetificam garotas o tempo todo. Grande parte disso eles aprendem com a mídia, que já realiza esse serviço há décadas. Propagandas de cerveja com mulheres seminuas, de lingerie, marcas de roupas e até de móveis que utilizam o corpo da mulher para vender, programas como Pânico que também se utilizam dos corpos das mulheres para terem mais audiência, ensinam aos meninos que mulheres são seres sem humanidade, são apenas corpos para servir-lhes. Esse aprendizado se reflete no dia a dia, através de uma lista das melhores e piores, por exemplo. Lista que já deve ter sido feita em várias escolas. Na minha foi. Mas também se reflete em momentos como um assobio de rua, um “gostosa” gritado de longe, uma frase obscena dita ao ouvido, uma passada de mão no corpo alheio, um toque ou um aperto onde não devia.
O terceiro momento que devemos comentar é o caso de Jess. Ela é a líder de torcidas e namora com Justin. Jess faz uma festa em sua casa e convida todos os colegas. Ela bebe demais, vai para o quarto com Justin, dorme e acontece com ela o mesmo que acontece com inúmeras garotas em festas: é estuprada. Mas quem a estupra é Bryce que diz para Justin: o que é meu é seu – novamente objetificando o corpo feminino como coisa a servir ao prazer masculino. É necessário dizer que fazer sexo com uma mulher inconsciente é estupro? Sim, é necessário. Bom, então: homens, fazer sexo com uma mulher muito bêbada ou inconsciente é estupro. Se você homem alguma vez já fez isso, você estuprou uma mulher. É isso que ocorre com Jess na série. Hannah está no quarto e assiste tudo. No outro dia Jess não lembra de nada e trata Bryce como um amigo. Os únicos que sabem são Justin, que não ajudou a namorada quando ela precisou, e Hannah. Ela decide contar o estupro nas fitas. Todos negam e dizem que não é verdade.
O corpo feminino é usado constantemente como objeto do prazer masculino na série. Os três casos citados até agora são um exemplo disso. O quarto caso mostra o resultado desses pequenos casos que vão criando grandes traumas. Hannah começa a se interessar por Clay. Os dois têm um momento íntimo durante uma festa, começam a se beijar, ele pergunta se está tudo bem para ela (legal, né, consentimento importa). Até que todos os assédios sofridos, todas as humilhações, os abusos, as violências físicas e simbólicas vividas começam a voltar em sua cabeça e no meio do romance todos os homens que já fizeram mal a ela se tornaram Clay. Ela não consegue continuar, aquela intimidade a faz lembrar do passado e ela o interrompe com uma crise de raiva e choro. Os traumas que foram se construindo até aqui finalmente apareceram. A garota está muito machucada. O machismo traumatiza, o machismo maltrata, o machismo mata. Hannah se suicidou por causa do machismo sofrido diariamente. Ter seu corpo objetificado, tornado um alvo, apontado, julgado, humilhado, acabaram matando-o.
O maschismo que matou seu corpo foi o mesmo que matou sua alma. E chegamos ao quinto e mais pesado momento da série. Hannah é estuprada por Bryce. Aqui temos uma discussão sobre consentimento. Os dois estão na hidromassagem, Bryce começa a se aproximar de Hannah, a tocá-la, que fica visivelmente incomodada com a invasão de Bryce. Este apenas afirma que eles estão se divertindo, que está tudo bem. Ela tenta recuar, não consegue, pois ele utiliza sua força para segurá-la. Hannah não sabe como reagir nessa hora. Ela não quer aquilo, mas não diz isso em palavras. Bryce força toda a situação, manipulando-a e pressionando-a a fazer sexo com ele. Mesmo Hannah não dizendo em palavras que não queria aquilo, era visível pelo seu recuo. Bryce não se importou com a vontade dela e impôs a sua vontade.
Mesmo quando uma garota não diz “não” isso não pressupõe que ela quer fazer sexo. O consentimento precisa estar explícito verbalmente e por gestos de aceitação da carícia. É muito comum homens forçarem sexo e as garotas acabarem cedendo por pressão. Eu arriscaria dizer que todas as mulheres já passaram por isso. Em uma cena seguinte, Clay confronta Bryce em relação a isso e ele nega, afirma que Hannah estava “implorando” para que ele fizesse sexo com ela. Disse que garotas são assim, fingem que não querem, mas no fundo querem. Ou seja, Bryce não cogitou que Hannah não queria fazer sexo e que ele estava a estuprando. Quantas vezes as mulheres terão que passar por isso até que homens entendam que Não significa mesmo Não? Quando homens vão começar a se preocupar com o consentimento da mulher? Quando uma mulher não terá sido forçada a fazer sexo por pressão masculina? Por que os homens se acham no direito de forçar sexo? Novamente, toda uma cultura machista que ensina homens erradamente.
Enquanto eu assistia a série, reconheci minha adolescência em vários momentos. Os julgamentos dos corpos, o controle da minha sexualidade, da sexualidade das minhas amigas, o nosso caráter ser definido pelo número de homens que nós beijamos, as passadas de mãos, os assédios, os abusos, as violências simbólicas que afetam nosso psicológico e nos deixam traumatizadas, os medos, a fobia de ser chamada de “vadia”, o receio de sair com um garoto e ser chamada de fácil.
É possível nos perguntarmos quantas vezes nós, eu, você, já agimos dessas formas com as pessoas. Quantas vezes eu, você, já tivemos estas mesmas atitudes machistas em nossas relações. Quantas vezes já objetificamos o corpo feminino, quantas vezes ele já foi usado para seu divertimento, para seu prazer, nem que seja o prazer de rir desse corpo humilhado. Quantas vezes elegemos a mais gostosa. Quantas vezes vimos nossos amigos estuprando mulheres inconscientes e bêbadas e não fizemos nada.

  Por causa dessa leitura de gênero a série me mostra que Hannah não teria se suicidado se ela não fosse mulher. As violências que ocorreram com ela não teriam ocorrido se ela não fosse mulher. Mataram seu corpo e por último sua alma. Quantas de nós andamos mortas pelas ruas devido às violências sofridas?