sexta-feira, 21 de abril de 2017

BREVE RELATO SOBRE A CRIAÇÃO DO CURSINHO POPULAR MINERVINO DE OLIVEIRA EM ALVORADA


Rafael Freitas, Historiador Alvoradense, Membro fixo do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata e Comunicador da Rádio Comunitária a Voz do Morro










BREVE RELATO SOBRE A CRIAÇÃO DO CURSINHO POPULAR MINERVINO DE OLIVEIRA EM ALVORADA

          Eis que em dezembro de 2016 surgiu a ideia de criar um cursinho pré vestibular popular em Alvorada, depois que essa cidade teve a experiência similar com o chamado Zumbi dos Palmares. E no mesmo lugar, na União das Associações de Moradores de Alvorada. Era uma conversa para a minha pesquisa sobre Luis Carlos Solim e sobre outras questões envolvendo política, como o início da criação do ativo do Coletivo Negro Minervino de Oliveira na cidade, quando o Sr. Raul Pereira perguntou “Porque vocês não fazem um cursinho na UAMA?”. 

           Unindo todas as ideias, entre conversas com o pessoal da UAMA, de cursinhos como o próprio Zumbi dos Palmares, Esperança Popular da Restinga em Porto Alegre, entre outros momentos de ricas reflexões e debates, os dois membros iniciais do Coletivo organizaram uma primeira formação aberta tendo em vista a formação da equipe de organização do cursinho.
            A formação ocorreu em 19 de janeiro de 2017 e teve como palestrante o militante da Resistência Popular professor Pablo, que abordou a importância da inserção no ensino superior para as classes populares. A próxima formação abordou os Panteras Negras. E muitas outras ocorrerão, pois o Coletivo está aberto a todos os que também lutam contra o racismo e pela pauta histórica das lutas de classe em Alvorada, que é confrontar a discriminação econômica que somente será abolida quando nossa sociedade não se dividir em classes sociais.
          O primeiro nome pensado para o cursinho foi Luis Carlos Solim, um ainda ilustre desconhecido para a população alvoradense. Mas ao ouvir um pouco sobre a trajetória de Minervino de Oliveira, o sr Raul, que faz parte da diretoria da UAMA, foi aluno e um apoio na coordenação do cursinho Zumbi enquanto esteve ali na UAMA por cerca de três anos, foi um entusiasta em dar esse nome para o cursinho popular. Sugestão aceita por mim e por Rafael Melo. O próximo passo foi produzir o logotipo.
          Todos os participantes do cursinho são voluntários e possuem ligação sentimental com Alvorada, almejando que a solidariedade não seja mais apenas os dizeres do pórtico de entrada na cidade, mas uma realidade. Foram estabelecidos os valores do cursinho, como o combate ao racismo, ao machismo, a discriminação religiosa e econômica. Bem como foram também definidos os seus deveres, de promover debates e atividades que reforcem o papel do cidadão; de empoderar alunos e alunas para que eles ocupem seus espaços de direito, dentro e fora de Alvorada; de promover o diálogo entre alunos sobre atualidades, direitos do cidadão e o debate político, para cada estudante exercer a cidadania de forma prática; instigar o debate sobre minorias e cultivar o respeito ao próximo; respeitar os espaços de fala de cada um e incentivar a participação coletiva.
          O Coletivo Negro Minervino de Oliveira alvoradense hoje possui seu secretariado, sempre visando estimular o surgimento de novas lideranças comunitárias. E o Pré Vestibular Popular Minervino de Oliveira hoje tem definida a sua equipe de organização, formada por um diretor geral, uma coordenação administrativa e uma coordenação pedagógica. Aonde seus integrantes não são todos do Coletivo Negro, que não é dono do cursinho. Não há um dono, como se o cursinho fosse uma propriedade privada. Além disso, pode-se dizer que também não há hierarquias, mas divisão de tarefas, aonde todos se ajudam. A instância máxima é a reunião geral, aonde há debates, votações, definição de tarefas, e as decisões coletivas são mais importantes do que as opiniões pessoais. O lema do cursinho: é popular, é nosso!
          Muitos dos membros da equipe de organização estiveram presentes desde a primeira reunião, como Fabiano Soria Vaz, Fabiano Boldrini, Davi D’Ávila Souza, Diuliane Andrade, Marcito Luz e Catiana Leite. Popular desde a sua organização portanto, o cursinho quando estava com vagas abertas para candidatos a fazer parte do seu alunado colava cartazes por Alvorada com os dizeres:“Já pensou em fazer faculdade? Estão abertas pré inscrições para interessados em fazer cursinho pré vestibular popular em Alvorada. As atividades serão realizadas na sede da UAMA- Tobias Barreto, 324, Bela Vista, Alvorada-RS (próximo à praça central) no turno da noite.”
          Tivemos mais de uma centena de interessados. Surgiram novas preocupações e passamos a buscar uma sede mais adequada para atender a essa demanda por cursinho popular em Alvorada. Chegamos ao Instituto Federal do Rio Grande do Sul, campus Alvorada.

 Foto da primeira reunião para divulgar a ideia de criar o Pré Vestibular Popular Minervino de Oliveira
          Na primeira aula, tivemos 51 alunos, que passaram a vivenciar experiências de educação popular. Eu afirmei, durante a minha fala na aula inaugural, ocorrida dia 17 de abril, que a educação popular seria a nossa utopia. Pois eu reflito muito se será possível uma educação popular de verdade em uma sociedade capitalista como a nossa aonde se insere Alvorada? O que envolve educação popular deverá ser tema de eventos ligados ao cursinho, mas enquanto isso, ela continuará sendo o nosso rumo. Quiçá o nosso alunado possa ano que vem, dentro do ensino superior, ensinar o que é educação popular, bastando apenas descrever o que viveram desde dia 17 de abril. Mês que é histórico para Alvorada.

 Fotografia tirada no primeiro dia de aula com os estudantes e parte da equipe de organização do cursinho popular Minervino de Oliveira
          O cursinho Minervino de Oliveira não deve ser um modelo para as experiências que virão, mas um cursinho popular entre outros como Transenem, Dandara, Colep, Território Popular, Zumbi dos Palmares, Lima Barreto, e diversos outros. Cada lugar e tempo tem as suas características e nenhum cursinho deve ser mera cópia de outro. Como o Minervino de Oliveira não está sendo uma mera reprodução, mas sim uma criação sem recalque e sem duplicata. 

          Com polígrafo autoral, camiseta com estética própria, que estarão movimentando a nossa história. Somos homens, mulheres, negros, brancos, católicos, de terreiro, ateus, de Alvorada, de Cachoeirinha, entre muitas outras variedades, todos da classe trabalhadora, organizados para inserir a periferia no ensino superior. Pois a periferia de Alvorada provou que quer estudar! Esse objetivo está sendo alcançado, pois o Instituto Federal do Rio Grande do Sul, campus Alvorada, é um espaço que abriga desde ensino médio até mestrado. Estamos  bem unidos fazendo a luta por meio da educação, em um cursinho sem amos, o Minervino de Oliveira!
           Encerro esse relato particular dizendo muito obrigado a companheirada: Rafael Melo, Marcito Luz, Debora Quadros, Matheus Kucharski, Lahis Brandão, Jhosi, Davi, Diuli, Edison, Lucas Morone, Janice, Leandro, Vanessa Matos, Fabiano Vaz, Fabiano Boldrini, Ana Paula Preto, Catiana Leite, Ana Paula Santos, Jairo Silva, Grazi Rodrigues, Kethlyn Martinez, Lucas Costa, Andreia Raupp, Julia Gomes, Wagner Cardoso. Christian. O grupo é grande e não acaba aqui. Todos com o mesmo objetivo, o cursinho popular Minervino de Oliveira, que não deve por questão de justiça ser o cursinho desse ou daquele indivíduo. Os nomes abaixo também fazem parte desse grande coletivo, e muito obrigado a cada um. Como todos nós temos nossas tarefas, a primeira deles é estudar! A segunda é também estudar!



quinta-feira, 13 de abril de 2017

A perda do senso crítico e a massificação nociva dos discursos inconsistentes




Daniel da Luz Machado é Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela UFRGS







A perda do senso crítico e a massificação nociva dos discursos inconsistentes

          Confesso com muito pesar o meu temor em relação ao título dessa reflexão. O quadro global, mas buscando um recorte apenas do nosso país para não nos estendermos muito, vem sendo permeado por um contexto turbulento.

          Desigualdade social em grande crescimento, recessão econômica, hostilidades crescentes a grupos minoritários, crise política e institucional, enfim um quadro que dá força para quem traz em suas análises um viés pessimista, ou simplesmente realista para alguns. 

          O Grande Escritor Umberto Eco disse uma frase contundente e muito polemizada que “As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis” , sem entrar no mérito ou juízo de valor dessa afirmativa, atrevo-me a usar essa frase como um ponto de partida reflexivo de como as tecnologias podem influenciar determinadas partes do coletivo, principalmente os que anseiam por protagonismo social, a formatarem suas opiniões e seus conhecimentos sem aterem-se aos veículos e a mecanização adequada para constituição adequada da sua opinião.

          O saber é plural em suas manifestações, advém tanto do empirismo cotidiano, da oralidade popular, da academia, mesmo que essa se distancie em determinados momentos do povo. E é justamente esse saber que vem da ciência, principalmente das humanas que detém a incumbência de refletir sobre a sociedade, que está sendo suprimido em todos os segmentos sociais.

          Dentro das próprias academias, cursos que também fazem ciência, mas não com intuito de refletir a sociedade, são os primeiros a desconsiderar quem se dedica a essa temática, talvez por isso Médicos recentemente formados repitam gestos constrangedores e machistas ao extremo em suas redes sociais, grupos de outros cursos hostilizem negros e índios nos campus que frequentam, enfim o que se passa na academia que deveria ser o berço do pensar e da pluralidade causa uma grande perplexidade.

          O cidadão fora da academia, envolvido com a labuta diária e o seu cotidiano, sem quase nada de tempo cedido pelo “Deus do Capital”, conhecido pelos nomes “Exploração dos empresários”, “Necessidade absurda de consumo” “Em busca de maior status”, e com doses nocivas e homeopáticas de “Jornal Nacional”, “Globo News”, “Revista Veja”, “Reality Shows variados” formará o conteúdo das suas opiniões de que forma?

          Livros ou leitores digitais beiram ao ultraje, não são mais necessários, basta seguir algum youtuber e de preferência nem assisti-lo na íntegra, a final basta compartilhar aquela postagem editada de 3min, aliás editada por alguém que tem interesses que o cidadão sequer entende. E nesse mosaico de informações fragmentadas e que passam léguas de uma boa leitura, de uma boa consulta, forma-se aquela frase que praticamente transformou-se em um mantra:

"É A MINHA OPINIÃO! EU NÃO CONCORDO E PRONTO. Seu petralha…, Seu coxinha…"

          Estamos nos encaminhando cada vez mais para um anacronismo, um reducionismo, uma dicotomia infrutífera, por que não lemos, não estudamos e apenas ouvimos o que nos interessa e encontra respaldo em nosso senso comum.

          Grande parte da sociedade que se ofendeu com a frase de Umberto Eco, legitima a colocação ao se comportar dessa maneira e talvez por isso em muitas timelines os discursos de um cidadão homofóbico, machista, racista como o Deputado Bolsonaro ganhem assustadoramente grande repercussão em todos os extratos sociais e agora em algumas camisetas estampadas. Eu já tive o desprazer de cruzar com alguém na rua vestindo tal peça de roupa

          Infelizmente, onde a leitura crítica se ausenta, cria-se terreno fértil para lideranças desse quilate, cria-se o ambiente perfeito para proliferação do pensamento reacionário, do desrespeito ao próximo e a si mesmo, da imposição de questões religiosas sobre decisões políticas e perpetua-se acima de tudo o direito quase divino das elites continuarem pisando em cima do povo, povo esse, que paradoxalmente para sentir prazer em ceder suas costas como tapete e compartilhar suas ideias embasadas em castelos de areia diante da onda que se aproxima.

sábado, 8 de abril de 2017

13 reasons why (Netflix) - Uma perspectiva de gênero


Cristine Severo é Graduada e Mestre em Letras pela UFRGS e Graduanda em Ciências Sociais pela UFRGS e Professora da Rede Pública em Novo Hamburgo - RS

13 reasons why (Netflix) – Uma perspectiva de gênero

* Contém spoilers
* Aviso de gatilho: o texto contém relatos de violência física, psicológica e sexual (estupro).

13 reasons why é a mais nova série da Netflix, mas também é um livro escrito por Jay Asher. A série conta a história de Hannah Baker, uma adolescente que está no segundo ano do ensino médio. Desde o início da série, nós ficamos sabendo que Hannah se suicidou e a história é contada intercalando momentos do presente (pós suicídio) e do passado (antes do suicídio). Antes de cometer suicídio, Hannah grava 13 fitas explicando as 13 razões que levaram-na ao suicídio. A série conta com uma narradora, Hannah Baker, que narra através das fitas, e um personagem principal, Clay Jensen, o número 11 das fitas.
A série abre margens para infinitas discussões: bullying, suicídio, depressão, o sistema escolar, adolescência, etc., mas também é possível fazer uma leitura de gênero, pois muitas das coisas que Hannah relata ao longo das 13 fitas ocorreram com ela apenas pelo fato de ela ser uma garota. Já na primeira fita Hannah nos conta como tudo começou: em um encontro com um garoto (Justin). Eles estão em um parque e ele tira uma foto dela descendo do escorregador. No dia seguinte, ele mostra a foto aos amigos, dando a entender que ele e Hannah teriam feito mais do que apenas se beijado. Um dos amigos espalha a foto para toda a escola e Hannah passa a ser a “vadia” da escola. Uma das lembranças mais especiais de sua vida – o primeiro beijo – fora arruinada no dia seguinte. Este fato representa a diferença entre a vida sexual masculina e feminina em nossa sociedade. Ambos estavam no parque, ambos fizeram as mesmas coisas, mas apenas um lado é julgado e condenado: a garota.
A sexualidade feminina é controlada desde sempre, enquanto a masculina usufrui de todas as liberdades possíveis. Na adolescência isso é muito latente. Garotos não são julgados quando utilizam desta liberdade. Enquanto garotas, se fizerem exatamente o mesmo que um garoto já fez tantas vezes, terá sua vida sexual controlada, julgada, apontada e surrupiada pelos demais. Será motivo de humilhação, piadas, xingamentos. Será a “vadia” da turma. A fácil. Por que essa diferença de tratamento para homens e mulheres? Por causa do patriarcado e da cultura machista de nossa sociedade que não enxerga na mulher um sujeito com desejos e vontades, mas sim um objeto a serviço do prazer masculino. À mulher a clausura, ao homem o mundo. Quanto mais uma mulher expõe sua sexualidade, mais abjeta ela se torna. Essa dupla moral ainda é sustentada hoje, na criação dos filhos. Meninos são criados para atacar, meninas para se defender, como se a arena sexual fosse uma luta, onde o homem que abater mais mulheres sai campeão e todas as mulheres perdem. O próprio ato sexual ainda é visto como uma batalha: um dominador e uma dominada. Garotos ainda se vangloriam quando conseguem transar com uma garota! Eles não pensam que esta garota também estava com vontade de transar com ele, garotos pensam que eles a “conquistaram” ou a “seduziram” e isso é motivo de comemoração. O sexo não é visto como um momento a dois, como uma relação horizontal de troca.
O que é preciso, em primeiro lugar, é melhorar a educação de nossos meninos. Educá-los para reconhecer nas mulheres um sujeito pensante e desejante, um ser humano ao qual devemos cuidar. Quantos de vocês se identificaram com Justin durante a série? Este é o primeiro aviso de que é hora de mudar sua postura em relação às mulheres.
Um segundo momento da série ocorre quando Alex faz uma lista das melhores e piores da escola. Hannah venceu a lista como melhor bunda. Como ela própria afirma na série: isso a tornou um alvo para os demais garotos. Ela passa a sofrer assédios nos corredores. Um dos personagens, Bryce, apalpa sua bunda e faz comentários obscenos para ela. Aqui fica expresso o quanto a objetificação do corpo feminino já está completamente internalizada na adolescência. As garotas da escola foram avaliadas, julgadas pelos garotos e receberam notas de acordo com seus atributos físicos. Nem o personagem de Clay, que é diferente dos outros garotos, conseguiu entender o por quê de Hannah ter ficado chateada com aquilo, afinal, segundo ele, era até um elogio. Garotos não entenderam que Hannah se sentiu como um objeto leiloado com essa lista. Ela perdeu sua humanidade e se tornou apenas seu corpo.
Garotos objetificam garotas o tempo todo. Grande parte disso eles aprendem com a mídia, que já realiza esse serviço há décadas. Propagandas de cerveja com mulheres seminuas, de lingerie, marcas de roupas e até de móveis que utilizam o corpo da mulher para vender, programas como Pânico que também se utilizam dos corpos das mulheres para terem mais audiência, ensinam aos meninos que mulheres são seres sem humanidade, são apenas corpos para servir-lhes. Esse aprendizado se reflete no dia a dia, através de uma lista das melhores e piores, por exemplo. Lista que já deve ter sido feita em várias escolas. Na minha foi. Mas também se reflete em momentos como um assobio de rua, um “gostosa” gritado de longe, uma frase obscena dita ao ouvido, uma passada de mão no corpo alheio, um toque ou um aperto onde não devia.
O terceiro momento que devemos comentar é o caso de Jess. Ela é a líder de torcidas e namora com Justin. Jess faz uma festa em sua casa e convida todos os colegas. Ela bebe demais, vai para o quarto com Justin, dorme e acontece com ela o mesmo que acontece com inúmeras garotas em festas: é estuprada. Mas quem a estupra é Bryce que diz para Justin: o que é meu é seu – novamente objetificando o corpo feminino como coisa a servir ao prazer masculino. É necessário dizer que fazer sexo com uma mulher inconsciente é estupro? Sim, é necessário. Bom, então: homens, fazer sexo com uma mulher muito bêbada ou inconsciente é estupro. Se você homem alguma vez já fez isso, você estuprou uma mulher. É isso que ocorre com Jess na série. Hannah está no quarto e assiste tudo. No outro dia Jess não lembra de nada e trata Bryce como um amigo. Os únicos que sabem são Justin, que não ajudou a namorada quando ela precisou, e Hannah. Ela decide contar o estupro nas fitas. Todos negam e dizem que não é verdade.
O corpo feminino é usado constantemente como objeto do prazer masculino na série. Os três casos citados até agora são um exemplo disso. O quarto caso mostra o resultado desses pequenos casos que vão criando grandes traumas. Hannah começa a se interessar por Clay. Os dois têm um momento íntimo durante uma festa, começam a se beijar, ele pergunta se está tudo bem para ela (legal, né, consentimento importa). Até que todos os assédios sofridos, todas as humilhações, os abusos, as violências físicas e simbólicas vividas começam a voltar em sua cabeça e no meio do romance todos os homens que já fizeram mal a ela se tornaram Clay. Ela não consegue continuar, aquela intimidade a faz lembrar do passado e ela o interrompe com uma crise de raiva e choro. Os traumas que foram se construindo até aqui finalmente apareceram. A garota está muito machucada. O machismo traumatiza, o machismo maltrata, o machismo mata. Hannah se suicidou por causa do machismo sofrido diariamente. Ter seu corpo objetificado, tornado um alvo, apontado, julgado, humilhado, acabaram matando-o.
O maschismo que matou seu corpo foi o mesmo que matou sua alma. E chegamos ao quinto e mais pesado momento da série. Hannah é estuprada por Bryce. Aqui temos uma discussão sobre consentimento. Os dois estão na hidromassagem, Bryce começa a se aproximar de Hannah, a tocá-la, que fica visivelmente incomodada com a invasão de Bryce. Este apenas afirma que eles estão se divertindo, que está tudo bem. Ela tenta recuar, não consegue, pois ele utiliza sua força para segurá-la. Hannah não sabe como reagir nessa hora. Ela não quer aquilo, mas não diz isso em palavras. Bryce força toda a situação, manipulando-a e pressionando-a a fazer sexo com ele. Mesmo Hannah não dizendo em palavras que não queria aquilo, era visível pelo seu recuo. Bryce não se importou com a vontade dela e impôs a sua vontade.
Mesmo quando uma garota não diz “não” isso não pressupõe que ela quer fazer sexo. O consentimento precisa estar explícito verbalmente e por gestos de aceitação da carícia. É muito comum homens forçarem sexo e as garotas acabarem cedendo por pressão. Eu arriscaria dizer que todas as mulheres já passaram por isso. Em uma cena seguinte, Clay confronta Bryce em relação a isso e ele nega, afirma que Hannah estava “implorando” para que ele fizesse sexo com ela. Disse que garotas são assim, fingem que não querem, mas no fundo querem. Ou seja, Bryce não cogitou que Hannah não queria fazer sexo e que ele estava a estuprando. Quantas vezes as mulheres terão que passar por isso até que homens entendam que Não significa mesmo Não? Quando homens vão começar a se preocupar com o consentimento da mulher? Quando uma mulher não terá sido forçada a fazer sexo por pressão masculina? Por que os homens se acham no direito de forçar sexo? Novamente, toda uma cultura machista que ensina homens erradamente.
Enquanto eu assistia a série, reconheci minha adolescência em vários momentos. Os julgamentos dos corpos, o controle da minha sexualidade, da sexualidade das minhas amigas, o nosso caráter ser definido pelo número de homens que nós beijamos, as passadas de mãos, os assédios, os abusos, as violências simbólicas que afetam nosso psicológico e nos deixam traumatizadas, os medos, a fobia de ser chamada de “vadia”, o receio de sair com um garoto e ser chamada de fácil.
É possível nos perguntarmos quantas vezes nós, eu, você, já agimos dessas formas com as pessoas. Quantas vezes eu, você, já tivemos estas mesmas atitudes machistas em nossas relações. Quantas vezes já objetificamos o corpo feminino, quantas vezes ele já foi usado para seu divertimento, para seu prazer, nem que seja o prazer de rir desse corpo humilhado. Quantas vezes elegemos a mais gostosa. Quantas vezes vimos nossos amigos estuprando mulheres inconscientes e bêbadas e não fizemos nada.

  Por causa dessa leitura de gênero a série me mostra que Hannah não teria se suicidado se ela não fosse mulher. As violências que ocorreram com ela não teriam ocorrido se ela não fosse mulher. Mataram seu corpo e por último sua alma. Quantas de nós andamos mortas pelas ruas devido às violências sofridas?  

quinta-feira, 23 de março de 2017

Ainda que, sem reducionismos dicotômicos, nunca a luta de classes no Brasil foi tão evidente


Ainda que, sem reducionismos dicotômicos, nunca a luta de classes no Brasil foi tão evidente

Daniel da Luz Machado é Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu  e  Bacharelando em Ciências Sociais pela UFRGS



   Durante as minhas reflexões, intensifico sempre o cuidado de evitar certas nuances que flertem com o anacronismo, o reducionismo, a dicotomia e tudo isso por acreditar piamente na complexidade entrelaçada de variáveis que conduzem a análise de um determinado fato social. 

                            O atual momento político e econômico que estamos vivendo no Brasil vem municiado de golpes precisos para contestar e derrubar a minha postura a respeito de cada texto produzido, de cada palavra emitida diante do que presenciamos nesta nefasta atualidade, alguns de nós passíveis e inertes, outros lutando por uma causa perdida.

                      Os arroubos autoritários do Juiz Sergio Moro que se aproveita dos dispositivos e brechas que o complicado sistema jurídico propicia para explicitar sem nenhum constrangimento uma conduta híbrida entre política partidária e questões jurídicas, ou alguém esqueceu a conduta coercitiva para adversários ideológicos e a complacência com aliados ideológicos?

                               A Terceirização para todas as atividades das empresas aprovada pela Câmara dos Deputados os acenos e ameaças das mudanças previdenciárias, que certamente passarão também, as pressões desumanas que o governo federal exerce sobre a dívida pública dos estados a total falta de segurança pública para o cidadão comum e principalmente para os menos afortunados e integrantes de extrato social mais vulnerável e tantas outras nuances cotidianas que vem oprimindo a coletividade, enfim temores e dissabores não nos faltam, pelo contrário, se apresentam em larga escala.

                     Essas questões aparentemente surreais me remetem a alguns livros, pensadores, filmes que abordaram e elucidaram esse nefasto momento. Karl Marx tão citado, e às vezes pouco estudado e compreendido ao contrário da pregação do mantra limitado e perpetuado pelas elites, que vivem repetindo a estúpida ideia de um perigo de uma eventual doutrinação Marxista, que é coisa de esquerdopata bagunceiro, O grande livro 1984 de George Orwell, O Príncipe de Maquiavel, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e tantas outras obras parecem dançar em minha mente e repetir o conteúdo que tanto me atemoriza: “A volta do estado de exceção e a consolidação da segregação de classes. O Brasil parece ter retrocedido em termos de abismos sociais e falta de perspectivas.

                         As políticas progressistas e seus avanços parecem ter afrontado em demasia o status quo vigente, a ponto da égide neoliberal que comanda o país, realizar ataques sucessivos, não apenas com o intuito de coibir, mas no claro intuito de retirar o que já estava estabelecido e plenamente acordado sob a insana e mesquinha afirmativa que o País está quebrado e as reformas são imperiosas para o bem estar futuro. Bem Estar de quem?

                             Para minha e também para muitos, eis que perplexamente, o “Mito da Caverna de Platão” vem a tona da atmosfera brasileira, que de uma forma dantesca produz não detentores dos meios de produção que saem em defesa da lógica elitista, a lógica do lucro, do capital, enfim a lógica de que a austeridade e a total inflexibilidade das relações de trabalho serão remédios amargos, porém eficazes para a solução de todos nossos problemas.

                                 E assim seguimos, alguns lutando desesperadamente para esclarecer e tentar manter o que é seu por direito, compartilhando noções de cidadania e a manutenção do sonho de um mundo melhor, mais inclusivo, mais democrático, menos desigual e outros tristemente apoiando as medidas oriundas da elite, a mesma elite que abrirá um belo vinho de safra valiosa para comemorar ainda mais o fruto do seu espólio, espólio esse conquistado sobre o cadáver dos mesmos incautos que defendem a classe dominadora ao invés de si próprio.






sábado, 18 de março de 2017

O Triunfo inegável de Maquiavel



Jefferson Meister Pires  -  Bacharel em Ciências Sociais pela UFRGS e Acadêmico de Licenciatura em Ciências Sociais pela UFRGS




O TRIUNFO INEGÁVEL DE MAQUIAVEL


                      Maquiavel nos trouxe a ideia de que os fins justificam os meios, desde então a humanidade vêm se debatendo com as discussões sobre ética e moral, sobre o que é aceitável para atingirmos um objetivo.

           Embora Maquiavel tenha escrito um manual político, é provável que em praticamente todos os ramos da vida humana esta máxima seja adotada como mantra, o capital e seus capitalistas são exímios com esta fórmula, “corta-se na carne para obter maiores lucros”, mas na carne de quem? Segundo Maquiavel, na carne de quem não pode se opor, de quem não vai oferecer resistência ou perigo, pois cabe lembrar que desde o tempo de Maquiavel até os dias de hoje a política é, em última instância, violência.

               A violência assume diversas formas, uma das mais comuns, segundo Pierre Bourdieu, é aquela naturalizada, a simbólica, a que nos é ensinada desde os primeiros dias de vida e só é intensificada a partir daí: escola, faculdade, trabalho... No Brasil do século XXI, a violência assume todas as formas, porém apenas algumas são realmente identificadas como violência, apenas aquelas que podem destruir a vida de imediato, de cidadãos brancos que não moram em periferias e zonas de pobreza, para o resto é normal.

          Para os brasileiros que utilizam ônibus e trens lotados todas as manhãs isto é normal, para as mães que precisam percorrer quilômetros para deixarem seus filhos em creches isto é normal, para os jovens que querem beber e se divertir tocando música em alguma praça ou esquina à noite e não podem fazê-lo sem correr o risco de assalto ou violência policial isto é normal, para àqueles que se revoltam e tentam protestar mostrando aos demais cidadãos que nada disto é normal e acabam por sofrer violenta repressão de agentes policiais, isto é normal.

               Mas porque diabos eu estou falando em violência simbólica se o assunto proposto é Maquiavel e os fins que justificam os meios? Por que no Brasil do século XXI, para acabar com os direitos trabalhistas tão duramente conquistados, é preciso que os próprios atingidos por esta violência não a vejam como violência, vejam como necessidade, como normal.
               O grande público, as pessoas que vivem nas cidades, aqueles que trabalham e os que estão desempregados, não estão conseguindo visualizar a armadilha em que estão caindo. A partir do momento em que a lógica do lucro se tornou dominante, tudo o que for feito para maximizar os lucros é visto como aceitável e normal, mesmo que seja um lucro que jamais vai ser repartido, que jamais vai ser socializado. Muito pior do que isto, o lucro pessoal passou a ser avidamente desejado, visto como triunfo na “batalha” na “luta” do dia-a-dia, qualquer noção de coletividade, de classe, é cada vez mais contestada e refutada, a única luta que poderia ser triunfante contra a lógica do lucro, a luta coletiva, fica restrita a pequenos grupos cada vez mais marginais em diversos sentidos.

            A lógica do lucro é quem verdadeiramente triunfou, triunfou esta ideia onde eficiência é correlata do lucro de capital, onde serviço público é visto como desperdício, onde existe uma questão dominante: para que dar de graça (ou com valor justo) se isto pode gerar lucro? Porém, nós poderíamos estar agora mesmo formulando dezenas de questões que levam mais ao fundo deste debate: Quando as companhias elétricas e de água forem vendidas, quem irá lucrar com isto? Quem irá se beneficiar de empresas e patrimônios levantados ao longo de décadas de investimentos com recursos públicos? Existe alguma possibilidade real de retorno social a partir da apropriação privada dos recursos públicos?

               Se o pensamento dominante é o lucro pessoal, particular, alguém saberia dizer por qual motivo aqueles que comprarem o patrimônio público com preços diminutos e subsidiados iriam devolver para a população uma grande parte do lucro obtido? Mesmo na forma de maior qualidade nos serviços e ou menor tarifa ao consumidor? São inúmeras as perguntas que deveriam ser feitas neste momento, como disse certa vez o poeta Mário Quintana, “A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas”. Mas de que adianta alguns poucos encherem páginas e páginas de perguntas quando àqueles que deveriam estar questionando a tudo e todos simplesmente não conseguem fugir daquela primeira pergunta.

            O futuro que imagino é de uma enormidade de pessoas nascidas para trabalhar, produzir, quase que em tempo integral, com a ameaça permanente de perder sua renda e, conseguintemente, sua vida. Sem a menor noção de que é possível ousar, questionar, protestar, coletivizar, aliás, a noção de coletividade vai estar cada vez mais restrita às redes sociais, às relações frágeis e sem solidez que o saudoso Bauman tanto advertiu em suas obras. Ter uma renda vai ser o direito a ser mantido e tão somente, ter acesso à antena da TV por assinatura vai ser cada vez mais o direito à cultura e conhecimento, pagar a prestação será como nunca a meta de vida e a redenção virá com a renegociação da fatura. Nada que fuja da normalidade será visto como natural, mas, qualquer público será aceito, héteros, gays, trans, negros, brancos, pardos, índios, punks, yuppies, hippies, etc. desde que estejam inseridos na lógica do consumo e do lucro individual, estar fora do sistema é que não será natural.

          O escritor Aldous Huxley nos brindou com sua crítica á uma sociedade onde os papéis já estavam definidos desde o nascimento, a ordem, a classificação e a identificação são tudo, enquanto que a criatividade e sapiência existiam para pouquíssimos. Dentro deste espírito, afirmou que a natureza dos fins é determinada pelos meios usados para atingi-los, pobre Huxley, certamente não estaria disposto a jantar com os empresários brasileiros ligados à FIESP (e outras entidades empresariais) e os representantes do atual governo brasileiro pós-PT, enquanto do outro lado da rua um grupo de trabalhadores apanhava da polícia por estarem exercendo seu direito à manifestação pública ao tentarem defender seus direitos trabalhistas. 

          Provavelmente Huxley não entenderia como e por que o governo PT procurou se aliar com os mesmos que o derrubariam, não entenderia como seria possível manter direitos coletivos quando o lado mais forte da corda queria derrubá-los. Mas, se pudéssemos colocar frente a frente Huxley e Maquiavel no Brasil do século XXI, é muito provável que o primeiro iria sorrir e beber um gole de seu vinho, enquanto que o segundo iria dizer em tom baixo e engasgado: “é, eu venci”...

Referências:

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe
BOURDIEU, P. O poder simbólico
BAUMAN, Z. Modernidade líquida
HUXLEY, A. Admirável mundo novo

quinta-feira, 9 de março de 2017

Temer, o pequeno.

Temer, o pequeno.

Cristine Severo é Graduada e Mestre em Letras pela UFRGS e Graduanda em Ciências Sociais pela UFRGS e Professora da Rede Pública em Novo Hamburgo RS

  
      Temer, o Pequeno, no dia da mulher faz um discurso retrógrado, conservador, machista, ridículo, elogiando as tarefas domésticas, a criação dos filhos e a participação da mulher na economia: ir ao supermercado e saber os preços dos produtos.

        Aposto que as mulheres economistas do país sabem mais que ele de economia. 

                Aposto que muita gente sabe mais que o famigerado Temer sobre qualquer coisa. O cara é um coitado. Alem disso, falou mais que as mulheres presentes, no Dia da Mulher. 

                O discurso de Temer, o pequeno, não é uma falha, uma vergonha, é um projeto de poder, é uma visão de mundo, é o país que ele quer construir.


            Que tipo de "presidente" tumba, velho, machista e múmia essa elite podre, mesquinha e gananciosa colocou no poder.

                  Não tem como dizer que esse discurso volta no tempo, pois em tempo nenhum as mulheres serviram só pra isso.


             As mulheres pobres sempre trabalharam para ajudar no sustento da casa, em todas as épocas. Temer reduz a mulher a um papel decorativo, doméstico, maternal, e é esse cara que está lá criando leis e reformas para a vida das mulheres. 

                 Se ele sabe que a mulher tem mais responsabilidade com trabalho doméstico e criação dos filhos, como ele mesmo afirma, porque quer igualar as idades na reforma da previdência? 

              Pessoas como Temer, o pequeno, precisam entrar em extinção, esse mundo não tem mais espaço pra gente como ele. O mundo precisa evoluir e esse tipo de pessoa só atrasa o desenvolvimento do país, das mulheres. 

                Temer está querendo que o mundo se mantenha igual 100 anos atrás, quando as mulheres querem que ele ande 100 anos à frente. 

                 Temer deve entrar na sua tumba, levar todas suas idéias com ele e nunca mais aparecer em público. Ninguém quer ele aqui.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

A grande armadilha da Reforma Trabalhista, ou “A quem interessa a Reforma Trabalhista?”

A grande armadilha da Reforma Trabalhista, ou “A quem interessa a Reforma Trabalhista?”

Sérgio Pires - Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Bacharelando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com ênfase em Antropologia.


Não é a toa que o Governo Federal muito tem investido pesadamente na divulgação nas grandes mídias de massa sobre os “benefícios” da Reforma Trabalhista. Escondidos nas palavras “modernização”, “flexibilização”, estão os verdadeiros objetivos, os quais quero falar de uma maneira sucinta e clara, para que possamos compreender os riscos que a classe trabalhadora está correndo.

          Um dos grandes argumentos que os autores do projeto preconizam é que, devido aos encargos trabalhistas e sociais, contratar trabalhadores é muito oneroso para as empresas, logo, se esses encargos não fossem pagos, as empresas contratariam mais. Essa sem dúvida é uma das grandes armadilhas da reforma, pois segundo a lógica do capitalismo, que visa o lucro cada vez mais, reduzir o custo da folha salarial com o fim dos encargos, proporcionaria um maior lucro para o empresário, ou seja, o mesmo quadro de pessoal, fazendo o mesmo trabalho a um custo menor, aumentaria seus ganhos sem precisar de mais mão de obra. Para as grandes corporações empresariais será a garantia de grandes lucros.

          Outro fator interligado a esse encontra-se na chamada “livre negociação” entre empresários e trabalhadores, onde tudo pode ser acordado, desde salários e jornada de trabalho. Este é um fator muito preocupante uma vez que , a relação empregador-empregado não é uma relação horizontal, simétrica, mas sim uma relação vertical e assimétrica, pois enquanto o trabalhador tem apenas sua força de trabalho para negociar, o empregador detém os modos de produção e todo o aporte financeiro, logo a relação é totalmente desigual, somando-se a isso o grande número de trabalhadores desempregados, que servem como reguladores do preço da mão de obra no mercado, temos então um cenário totalmente desfavorável para o trabalhador que está em processo de negociação com o empregador. O que podemos vislumbrar desse cenário é a total precarização das relações de trabalho, com o aumento da carga horária e uma estagnação ou diminuição de salários.

          Aliado a essas questões há uma outra que creio ser a mais grave de todas, e se refere a Previdência Social. Fala-se muito sobre o “rombo” da previdência e de quanto é urgente a sua reforma para uma readequação das contas e garantir a aposentadoria dos futuros trabalhadores. Muitos especialistas atestam para a falsidade dessas informações, e que não há déficit na previdência. Não é de hoje que os grandes conglomerados empresariais do ramo de previdência privada estão com suas garras afiadas para abocanhar esse grande nicho de mercado, aliando-se isso a todo um discurso que a direita brasileira absorveu e reproduziu, de que privatizar é a solução para todos os problemas que o Estado tem em se tratando de empresas estatais, e isso também se refere a previdência social. Sabemos que as empresas de previdência privada valem-se da especulação para aferir seus lucros, agora tentem imaginar o quanto seria desastroso e extremamente arriscado confiar a aposentadoria do cidadão brasileiro a empresas privadas.

          Outra questão importante, e que precisa ser mencionada nesse contexto, é todo um discurso de convencimento que vem sendo massificado na classe trabalhadora, de que com a reforma eles passariam a ser “empresas individuais” prestando serviços para outras empresas. O teor desse discurso é por demais nefasto, uma vez que pressupõe uma desconstrução do conceito de classe trabalhadora e que para muitos, infelizmente, encontra eco, muito por conceitos como “empreendedorismo”, mostrado e entendido de forma equivocada, em uma versão brasileira e muito deturpada do “American Dream”. Quando se desconstrói o termo “trabalhador”, não estamos apenas falando sobre terminologias, mas sim de construção de pessoas, e essa construção pressupõe também a formação de novos ethos que serão incorporados nas vidas dessas pessoas.

          A grande questão que este artigo pretende colocar em discussão, é que a Reforma Trabalhista, como está sendo apresentada, só beneficia aos grandes grupos empresariais, que terão suas possibilidades de lucro aumentadas. Nesse sentido podemos inclusive colocar que essas políticas para implementação de um estado mínimo, tomadas por esse governo sem o menor constrangimento, beneficiam as classes mais abastadas, que por possuir grande capital, passará a ter o controle de setores que deveriam ser exclusivamente estatais, como é o caso da Previdência Social. Quando se alia Reforma Trabalhista e a precarização da Previdência Social, quem sairá perdendo direitos básicos será a classe trabalhadora, que será entregue aos interesses do Capital e seus representantes.