segunda-feira, 22 de maio de 2017

A Falange Espartana e a atual crise no Planalto...

Sérgio Pires - Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, bacharelando em Ciências Sociais pela UFRGS, com ênfase em Antropologia.





A Falange Espartana e a atual crise no Planalto...

Como amante de cinema como sou, possuo uma grande coleção de filmes, dos mais variados gêneros, de cults aos blockbusters, e sempre que posso faço sessões de cinema com meus filmes favoritos, que obviamente tem um lugar de destaque na estante.

 Nesses dias enquanto estava organizando a estante, me deparei com o filme 300,  estrelado pelos atores Gerald Butler e Micheal Fassebender, que conta  saga de Leônidas, rei de Esparta, e seus 300 guerreiros que lutaram contra o numeroso exército de Xerxes, que buscava a dominação de Esparta pela Pérsia.

Uma das cenas do filme que sempre me chamou a atenção, mostra uma conversa entre Leônidas e o Efialdes, o corcunda, onde ele alerta o rei sobre um antigo caminho de bodes, que poderia servir de caminho para os persas atacarem os espartanos, saindo do estreito caminho de Termópilas, os atacando de surpresa. Nessa conversa, Efialdes pede ao rei para fazer parte no combate, como soldado espartano, e Leônidas, em resposta,  pede a ele que levante seu escudo o mais alto possível, tarefa que  não pode ser cumprida devido a sua deficiência física, e o rei então lhe explica que, o grande segredo da falange espartana é que o guerreiro protege o guerreiro ao seu lado, erguendo o escudo do joelho ao pescoço, uma só falha e a falange se estilhaçaria, e em virtude disso Efialdes não poderia ser utilizado como um guerreiro espartano.

Após essa ilustração, gostaria de falar um pouco sobre a atual conjuntura da crise política em nosso país, mas, qual a relação entre a crise política e a falange espartana? De modo algum quero comparar as duas histórias, e menos ainda os personagens de ambas, mas o que tenho observado no atual cenário político é justamente a explicação de Leônidas no que se diz respeito a proteção, obviamente não sob o aspecto da guerra, nem de guerreiros que lutam pela liberdade de seu povo e contra a opressão, mas sim no protecionismo que está muito presente na política brasileira, e nesse sentido quero falar pontualmente sobre a falange que está sendo armada para proteger e manter no poder o presidente Michel Temer.

As denúncias provenientes de farto material produzido por integrantes ao alto empresariado do país, mostram como um esquema gigantes de corrupção passiva e ativa, atua no país, além de evidenciar o envolvimento direto de integrantes dos 3 Poderes, perpassando por ministros do STF, senadores, deputados, ministros, e do próprio presidente da República, que já contava com altos índices de rejeição.

O que se espera em uma situação como essa é a busca de esclarecer todos os fatos, e que os culpados sejam punidos de acordo com seus crimes cometidos, contudo, o que se tem observado, seja na imprensa, seja nos pronunciamentos oficiais, é todo um estratagema sendo montado para proteger os envolvidos, capitaneado pelo próprio presidente Temer, que, em pelo domingo, realiza uma reunião na Sala de Banquetes do Palácio, para organizar e tecer estratégias políticas de sua manutenção no poder. Dentre os convidados, nada mais nada menos que o responsável por receber ou não os pedidos de impeachment, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do Democratas, que já afirmou, sem pestanejar que não aceitará nenhum pedido de impeachment, que já estão sendo enviados, inclusive da OAB.

Toda essa articulação do executivo federal, da câmara e do senado, e inclusive de membros do STF, me lembrou a falange espartana...mas apenas na função de proteger, pois em nada se compara com o que está acontecendo na capital federal, pois enquanto em 300, assistimos a história de  homens leais ao propósito de salvaguardar seu povo, sacrificando suas vidas para tanto, em nosso cenário político brasileiro, estamos assistindo homens, sem o menor escrúpulo, arquitetando maneiras de barrarem os processos que estão por iniciar e desqualificar todas as denúncias que incluem seus nomes, em total detrimento da ética, da honestidade, e da fé pública.


Escudos estão sendo levantados, os guerreiros do mal estão protegendo uns aos outros contra o ataque da verdade e da justiça, visando unicamente salvar suas peles, suas vidas políticas e seus vultuosos patrimônios construídos de maneira ilícita, através do suor do contribuinte e de dinheiro sujo decorrente de operações fraudulentas.

A nós, todos nós, cabe impedir que essa proteção resulte em um esquecimento de todas essas denúncias, não podemos nos calar diante de tais absurdos. Que nossa resistência possa ser maior do que a capacidade que eles tem de se protegerem, que nossas vozes possa ecoar mais alto e mais longe, seja de modo virtual, mas especialmente tomando as ruas, defendendo a legalidade e a justiça, e a punição para todos os envolvidos, a começar pelo próprio presidente Temer, que ascendeu ao poder através de um golpe e detentor de um dos índices de rejeição maiores da história do presidencialismo brasileiro.

Á Leônidas e seus 300 a história lhes relegou um lugar especial, de reconhecimento pelo seu sacrifício, e quanto ao nossos “protecionistas”, que a história possa lhes relegar o justo por seus atos obscuros, ou seja, que jamais se apaguem dos livros os atos por eles cometidos, e que nós, enquanto eleitores, possamos desenvolver a consciência e o hábito de buscar sim na história as informações necessárias para refutar qualquer candidatura de políticos como esses, que mancham a trajetória de  nossa jovem democracia, e nada mais fazem a não ser defender seus interesses próprios e dos grandes grupos que o representam.

terça-feira, 9 de maio de 2017

As minorias sob o peso dos meus pés


Daniel da Luz Machado é Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela UFRGS

As minorias sob o peso dos meus pés


            Os mais céticos certamente não imaginaram o quadro de retrocessos históricos aos quais  o Brasil vem sendo submetido nos últimos meses. A cada  atrocidade contra direitos historicamente conquistados e consolidados, um certo estado letárgico parece tomar uma grande parte da população que já nem tenta reagir diante de tamanha desfaçatez gerada pela elite nacional.

            É claro que os movimentos sociais, bem como uma parcela significativa da juventude estudantil, as lideranças dos trabalhadores envolvidos  e alguns setores mais progressistas da classe média (infelizmente minoritários na sua classe), alguns políticos oposicionistas com compromissos honestos com seus eleitores tentam e não esgotam as tratativas de resistência e manutenção dos direitos adquiridos, porém na calada da noite com muita compra e venda de votos, muita pressão e maracutaias  as decisões mais esdrúxulas vão nos jogando quase que diariamente um banho de água fria.
            Mas em que momento histórico o trem resolveu descarrilar? Com o perdão do trocadilho, a justa falta do conhecimento histórico é o que mais prejudica a capacidade analítica da população, para escolher caminhos mais transitáveis.

            Falando especificamente de dois grupos minoritários que estão sendo muito atacados em seus direitos os Indígenas e os Quilombolas, basta ver  os constantes absurdos que estão sendo cometidos com esses dois coletivos. Em relação aos Índios a loucura é tanta que a presidência da FUNAI foi concedida a um pastor evangélico que desconhece como poucos as cosmologias dos povos indígenas, basta ver suas declarações absurdas que fazem corar a qualquer estudante de primeiro semestre de antropologia. Quanto aos Quilombolas a negativa e a morosidade na titulação de terras, além de CPIs esdrúxulas constrangendo técnicos e antropólogos  se fazem repetir por uma classe política que na sua maioria conhece apenas o cosmo de seus interesses ou dos jogos internos da vida partidária.


            Mas o porquê desses grupos minoritários estarem sendo tão atacados nesse governo de aura fascista que se instalou no Brasil? Ai entra o papel da história tão afastada da população para que ela não possa elucidar seus pensamentos e se torne presa fácil e venha a reproduzir o discurso do opressor.
            A historiografia brasileira é plural, controversa às vezes, porém muito rica com uma quantidade de obras que instruem e desmistificam determinadas posições maquiavelicamente orquestradas pela elite na intenção de se perpetuarem no poder.
            Mitos como a democracia racial caem por terra quando se tem acesso a obras do quilate de “A Construção Social da Cor” do professor José D’Assunção Barros que  traça um enorme panorama de como se constrói  socialmente diferenças que vemos a olhos nus na sociedade brasileira.

            Livros como As identidades do Brasil do Professor Jose Carlos Reis, mostrando como nossa identidade cultural foi concebida e tantos outros não fazem parte do cardápio literário brasileiro que fica “desnutrido” dessas informações altamente palatáveis e revigorantes e que pela sua ausência não conseguem entender o processo de exclusão indígena que iniciou desde a vinda dos portugueses até os dias atuais.
                                                                                                                                                                              Desta forma com tanta falta de informação, grande parte da sociedade  permanece imobilizada diante das botas das elites que pisam e esmagam sem a menor cerimônia.

            

domingo, 30 de abril de 2017

O 7x1 de hoje foi contra as mulheres

Cristine Severo é Graduada e Mestre em Letras pela UFRGS e Graduanda em Ciências Sociais pela UFRGS e Professora da Rede Pública em Novo Hamburgo - RS












                   O 7x1 de hoje foi contra as mulheres





                              O 7x1 de hoje saiu cedo, num domingo bonito aqui em Porto Alegre, com sol, temperatura amena, ótimo para aproveitar o dia. Mas então saiu a entrevista de temer, o pequeno, dizendo que os governos precisam ter marido para que não quebrem. É um 7x1 todo dia. 


                                    O que temer, o pequeno, se esqueceu é que em toda a história da humanidade ocidental que se tem conhecimento até hoje, os maridos estavam no governo. Quem estava no governo quando houve a crise de 1929? Um marido, e vejam só, os países quebraram. Quem estava no governo nas históricas crises de fome e miséria que assolam a Terra desde sempre? Veja só, os maridos também. Quem estava no governo na crise de 2008 e na quebra de muitas economias? Os maridos também! Quem estava no governo nas duas grandes guerras, ou em tantas outras guerras, que quebraram tantos países? Mas não pode ser, os maridos também!! Que engraçado que ninguém disse em 1929: “claro, tinha que ser um homem no governo pra quebrar a economia desse jeito! Homem não entende nada de política!”. Mas quando há uma mulher no governo, o primeiro deslize e todo mundo: “tinha que ser uma mulher”.

                                    Mas a entrevista só piora. Temer, o pequeno, compara a economia de um país com a economia doméstica. Segundo ele, uma esposa não pode gastar mais do que ganha o marido, ou ela vai quebrar o marido. Temer, o pequeno, não tem a menor noção de qual país ele está governando. Ele simplesmente não conhece o Brasil. Ele acha que ele está governando uma casa grande e que todos ao redor são seus servos. 

                                 Temer ignora completamente os dados do IBGE que falam que até 2014 eram 40% de famílias no Brasil chefiadas por mulheres. Ignora também outra pesquisa do IPEA que afirmava que em até 2010 o número de mulheres era de 49% da população economicamente ativa. 

                           Nosso atual presidente não reconhece que mulheres são parte integrante da economia que ele mesmo quer salvar, não reconhece que mulheres não dependem mais dos seus maridos para sobreviver, não reconhece o país que ele governa. Ele não reconhece que as mulheres trabalham, ganham seu próprio salário e gastam como elas decidirem gastar, sem ter que dar contas disso para ninguém. 

                                E mais, com essa fala, ele pressupõe que todas as mulheres têm que ter um marido! E um marido que as sustente! Ele acha que o Brasil ainda é uma enorme casa grande e que todo mundo vive como ele e a sua esposa. O cara não tem a menor noção da realidade pra fora dos seus portões. E é a ele que está confiado gerir e governar essa realidade que ele desconhece. Como ele pode supor que é capaz de uma tarefa dessas? 

                                Sempre que estamos avançando um passo em direção à conquista de mais direitos e respeito para as mulheres, voltamos dois quando temos que ouvir um absurdo desses. Mas o que esperar de um cara que, no dia da mulher, afirma que o valor da mulher na sociedade é saber o preço das coisas no supermercado. Que vergonha nacional e internacional de esse cara ainda existir.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O gato em frente ao espelho...

Sérgio Pires - Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, bacharelando em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.








O gato em frente ao espelho...




                            O dia 28 de abril deste ano ficará marcado na história como um dia de luta, de mobilização da classe trabalhadora, seja através de entidades sindicais ou por inciativa própria, trabalhadores e trabalhadoras tomaram as ruas de diversas cidades do país.

                       Toda essa mobilização gerou muita simpatia entre a população, afinal tratava-se de uma luta pelo bem do coletivo, porém também gerou descontentamento...o que ficou muito evidenciado nas redes sociais, onde um grande número de postagens eram de apoio as mobilizações, assim como um grande número eram contrários, tecendo comentários e críticas. Mas o que me chamou a atenção, e é o que quero abordar neste artigo, é um tipo bem específico de ator social, que em nome da busca de uma maior produtividade e uma busca por lucros maiores, desqualifica as lutas de hoje, rotulando aqueles que estão participando dos movimentos de protestos como “vagabundos”, “vândalos”, e assim por diante. Me refiro a aqueles que possuem pequenos negócios, em grande parte do setor de prestação de serviços, e que se julgam pertencer a um outro estrato social, se auto-atribuindo o título de “empresário”.

                    A imagem do gato olhando no espelho, e no reflexo aparece um leão, onça, tigre ou outro felino maior, é muito comum em mensagens de auto-ajuda ou em mensagens motivacionais. Atribui-se um significado de superação de limites, exaltando a imensa força interior que todos temos. Contudo, para o contexto que estou abordando aqui, faremos uma outra interpretação desta imagem...

                   Dentre tantas postagens que circularam pela minha timeline no dia de hoje, uma delas me chamou a atenção e me fez refletir muito sobre o que li. Um dos meus amigos postou um texto atribuído ao dono de uma grande rede de fast-food...neste texto o autor fez algo como um desabafo, falando sobre as dificuldades de um empresário em manter suas empresas lucrativas com tantos impostos a serem pagos, inclusive tecendo duras críticas a CLT, e ao alto custo das ações trabalhistas, etc. No fim do texto ainda havia um desafio para quem quisesse de fato conhecer as dificuldades em ser empreendedor no Brasil.


                  Mas o que chamou muito a minha atenção foi a frase que este meu amigo escreveu ao compartilhar: “Esse falou por mim...”. Confesso que fiquei perplexo quando li, sem compreender muito bem o que de fato estava em jogo, tanto com a postagem quanto a frase utilizada por este amigo. Pois bem, depois de muita reflexão, creio que pude desenvolver um diagnóstico desse quadro.

                        Quando pensamos no sentido da frase: “Esse fala por mim...”, pensamos em representatividade, em representação...mas quem representa quem de fato? A quais grupos ou estratos sociais pertencem, tanto o suposto autor quanto quem simpatizou com a frase? Que imagem reflete no espelho?

                        Creio que devemos fazer algumas considerações a respeito disso. Uma das questões que sempre resultam em grandes discussões é justamente esse sentimento de pertencimento a grupos, mas que não são os grupos que de fato pertencem esses atores sociais, ou seja, quando vejo micros e pequenos empresários, defendendo pontos de vista adotados por grandes grupos empresariais, percebo o quanto isto é equivocado, uma vez que há uma grande distância social entre esses mundos, que são muito distintos, não apenas pensando em tamanho ou faturamento, mas também pensando em outras distinções entre esses grupos, tais como capital social e cultural.

                       A comparação entre aquele pequeno empreendedor, para usar um termo mais moderno do capitalismo, e os grandes empresários é muito injusta e inadequada se pensarmos principalmente nas isenções fiscais que grandes grupos empresariais recebem dos governos municipal, estadual e federal, ao passo que os micros e pequenos tem uma pesada carga tributária a pagar, tornam-se muito difícil manter essas empresas abertas em muitos casos.

                      E apenas possuir uma empresa não eleva o ator social a outra classe, não garante o pertencimento a outro estrato social, inclusive não sendo aceito nos mesmos espaços sociais que os grande empresários, pertencentes as classes mais abastadas do país frequentam, tanto pela seletividade destes lugares quanto pelo alto custo.

                     Outro fator que cria a ilusão de pertencer a uma classe social mais alta, são os bens de consumo. Ora, se o aumento das receitas permite que esses pequenos empresários possam comprar bens como carros, eletroeletrônicos, etc, ainda assim existe um grande abismo entre aqueles que vendem sua força de trabalho e os que possuem os meios de produção. Ou seja, uma vida confortável mas que se baseia ainda em seu trabalho, uma vez que muitos desses pequenos empresários tem uma rotina árdua na condução de seus negócios, é uma vida de trabalhador, como tantos outros que, seja no serviço público ou empresas privadas, com bons salários, são trabalhadores de qualquer modo.

                  A escolha da imagem do gato em frente ao espelho, aqui ganha contornos e significados diferentes, uma vez que, assim como o gato que se olha no espelho e enxerga um leão, muitos pequenos e micro-empresários veem a si mesmos como pertencentes ao grupo dos grandes empresários, das grandes corporações, e essa interpretação não deve jamais ser confundida com uma crítica destrutiva, mas sim o contrário, uma vez que a grande força desses pequenos e micros é verificada quando analisamos que estas empregam um grande número de outros trabalhadores, são geradores de emprego e renda, e justamente por esse viés é que devem perceber que essa grande força reside na união da classe trabalhadora para poder fazer frente contra os objetivos das grandes corporações, que sempre visam o lucro do que qualquer outra coisa, inclusive com a saúde física e mental dos seus empregados, e com o desenvolvimento dos centros urbanos.

                       Apesar de gostar de gatos, faço uma sugestão aos amigos micro e pequeno empresário: ao se olhar no espelho, não veja os grandes empresários que não representam nada e ninguém que não seja os seus interesses, mas veja quantos trabalhadores iguais a você estão ao teu lado, pois é a força do trabalho deles que faz com que você tenha sucesso.

O navio a deriva onde os marujos se dividem entre navegar e combater os capitães do mato que se espalham pelo convés diante do olhos felizes da elite que está em terra firme


Daniel da Luz Machado é Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela UFRGS.



O navio a deriva onde os marujos se dividem entre navegar e combater os capitães do mato que se espalham pelo convés diante do olhos felizes da elite que está em terra firme




A grande paralisação convocada pela greve geral no dia 28 de abril, que ainda ocorre no momento em que escrevo, me instiga profundas reflexões.

          Penso sobre o papel social desempenhado nos últimos anos pela corrente ideológica mais progressista em relação a políticas públicas e que se define como “esquerda”, da qual faço parte, de que maneira muitos de nossos representantes deixaram-se absorver pela institucionalidade, a ponto de apostarem muito em jogos políticos, que embora algumas vezes necessários, acabam flertando perigosamente com representantes de um status quo outrora veementemente combatido e que de forma alguma permitiriam avanços sociais imperiosos em uma sociedade tão desigual quanto a brasileira.

          O verdadeiro e criminoso desmonte da legislação trabalhista e previdenciária que repassa aos mais pobres e vulneráveis a conta de gestões que coniventemente embricaram-se com grandes desvios, mas que em hipótese alguma pertenceram a um único partido, como desonestamente a Rede Globo e seus comparsas atribuem, transforma-se em um dos maiores se não o maior ataque a classe trabalhadora no Brasil.

          Os trabalhadores da indústria privada que entenderam a necessidade de parar e lutar pelos seus direitos, mas que não puderam realizar em razão de ameaças e risco de perda de emprego, o que fere diretamente a constituição que assegura o direito a greve e somente em razão disso tentaram e outros conseguiram comparecer em seu local de trabalho, isso eu entendo perfeitamente. Mas os funcionários públicos que foram contra a paralisação? Os funcionários públicos que aproveitaram para descansar e não sair de casa encarando o dia de hoje como uma folga? Os trabalhadores autônomos que passavam com seus carros particulares verbalizando xingamentos? Os que incautamente acreditam que a manifestação de hoje era meramente política na tentativa de defender o Partido dos Trabalhadores (PT)? Os que enxergam com viés reducionista sem manifestar a menor consciência de classes? E uma parcela da classe média que não percebe que a médio prazo estará mais empobrecida com essas medidas e perderá o seu amado “padrão de consumo”? E os incautos que não formam uma opinião consistente embasada em leituras e observações apropriadas e depois repetem o mantra “É a minha opinião”?

Manifestação em frente a empresa de transportes coletivo Soul em Alvorada-RS

          Dentre as reflexões que no inicio do texto citei que havia sido instigado, essa é uma das mais preocupantes. Com a plena consciência da construção social, me indago e repasso essa indagação de como em termos práticos poderemos ajudar a libertar muitos de nossos pares desse comportamento tipico de “Capitão do Mato”? Como dialogar com quem não quer ouvir? Como demonstrar que a realidade a qual muitos foram inseridos é um mero apêndice da construção social coletiva que faz questão de demarcar territórios nas esferas decisivas, mas que vende esse falso discurso de que uma renda média ou alta te faz pertencer a uma classe que não te quer, a não ser como verdadeiramente MASSA DE MANOBRA!!!

          Quem não detém os meios de produção, mas age como tal não é rico, é apenas um capitão do mato do século XXI infiltrado em um navio a deriva e prejudicando os marujos que lutam para salvar a embarcação. E tudo isso sob o olhar feliz da classe dominante que se regozija em terra firme.

Com o companheiro de lutas pela educação e colaborador do Blog Humanidades em debate Professor Eduardo Schutz.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

MULHERES E VIOLÊNCIA

Letícia Roxo é Licenciada em História pela FAPA, professora da Rede Pública Estadual.











MULHERES E VIOLÊNCIA

             O mundo contemporâneo está cada vez mais moderno, desenvolvendo e aprimorando conceitos, teorias e técnicas. Em todas as esferas da vida pública ou privada vemos avanços significativos. A ciência é um bom exemplo disto.

            Durante o século XX os avanços tecnológicos foram gritantes. A guerra fria foi um incentivador para que isso ocorresse, a disputa por hegemonia entre capitalistas e socialista fez avançar as pesquisas e descobertas, principalmente, na ciência, armamentos, farmacologia. Embora esses avanços sejam usados para a guerra, para impor o poder de um sobre outro.

            A mulher no século XX também foi ganhando seu espaço social, embora fosse para suprir uma necessidade capitalista e não por reconhecimento da sua condição humana de igual.  Embora tenhamos conquistado espaços antes apenas ocupados por homens, e os ocupassem com tamanha ou mais competência ainda lutamos por igualdade, por reconhecimento, por direitos.

            E essa desigualdade que se dá em várias esferas da vida, tais como: financeira, social, física, sexual e etc. ela é gerada pela ideia de superioridade masculina. O homem concebeu, e perpetua isso de geração para geração de que é superior a mulher. Portanto se é superior exerce poder sobre ela.

            E essa superioridade masculina (infundada, ilegal, insana) gera a violência contra mulher. Essa violência é moral, física, psicológica, doméstica, empregatícia... justificada pela lógica masculina de que é melhor, superior e dono do corpo, da mente, da vontade da mulher.

            Embora, hoje, muitas mulheres já reconheçam a sua condição humana de igual para com os homens e lutem contra cada e qualquer tipo de abuso sofrido e cometido pelo gênero masculino, ainda é muito comum ver mulheres tão fragilizadas pela violência, seja ela de qualquer tipo, que se colocam como culpadas e justificam a violência sofrida. O fato de ser mulher não é motivo de violência. Lutemos, sempre, contra isso.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Farinha pouca, meu pirão primeiro...

Sérgio Pires - Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, bacharelando em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul








    Farinha pouca, meu pirão primeiro...(Ou o individualismo da classe trabalhadora brasileira)


            A terceirização das atividades-fim é sem dúvida um dos assuntos mais discutidos em se tratando da conjuntura da política nacional atual, contudo, já tramitava no complexo sistema burocrático das casas legislativas federais. O cenário que se formou a partir dessas reformas foi de intensa luta, chamada por diversos sindicatos e entidades de classe profissional, articulando junto aos seus representados para tentar barrar essa e outras reformas trabalhistas que, sem dúvida, aliada a reforma da previdência, atingirão toda a classe trabalhadora nos próximos anos. Mas, e quando a terceirização somente era possível nas atividades-meio? Por que determinadas classes de trabalhadores podem ser aviltados em seus direitos sem toda essa comoção nacional?

          Sou servidor público estadual da Secretaria de Educação, e na minha jornada de 13 anos, lotado em escolas públicas, tive o desprazer de ouvir muitos professores e professoras tecendo duras críticas aos colegas (sim, colegas servidores públicos, mesmo que isso faça torcer o nariz de muitos professores e professoras) do quadro de funcionários de escola, especialmente aos que cumprem as funções de manutenção e merenda escolar. Em um sem número de vezes ouvi coisas como: “...na época da EBV – empresa terceirizada – eram bem melhor...”, “...se fosse de empresa privada já estavam na rua...”, “...na época da terceirizada a escola vivia brilhando...”, e muitos outros comentários do tipo.

          Pois bem, o que há por trás desse discurso? Há quem possa dizer que se trata apenas de observações, críticas referentes a execução destes serviços, mas quando se pensa que, estes trabalhadores vivem sobre pressão do terror do desemprego, de perder sua minguada renda, tão somente pela simples queixa de uma diretora descontente, e que, em muitos casos, esses trabalhadores, pais e mães, nem ao menos podem cuidar de seus filhos doentes sem serem demitidos por faltarem ao trabalho, mesmo com justificativa.

           Essa é uma discussão que nunca foi abordada, pois, como diria Bertold Brecht em seu poema:

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

           Pois bem, enquanto somente limpeza, portaria e cozinha eram terceirizados, tudo bem, afinal muitos dos que faziam as reclamações e exaltavam as empresas terceirizadas não faziam parte dessas classes de trabalhadores, mas...agora que as atividades-fim podem também ser terceirizadas? Como explicar toda a comoção e mobilização que se verifica sobre o tema então? Não será essa uma maneira de tentar “não ser levado” sem as pessoas se importarem? O que explica esse comportamento do trabalhador médio brasileiro?

          Muito pode ser explicado esse comportamento se pensarmos em como somos incentivados a sermos competitivos, a pensarmos somente em nosso sucesso pessoal, em buscarmos cada vez mais conquistas que mostrem nossa capacidade individual, e de como eu consigo “descer para o asfalto” através dos meus próprios méritos. Nossa formação enquanto cidadãos é fomentada em grande parte pelas premissas do capitalismo e do “American Dream”. Em toda nossa formação, e neste sentido não falamos apenas da escola mas também de todos os aparelhos ideológicos como televisão e outras mídias, somos formatados a pensarmos de modo único e exclusivamente individual, sem jamais pensarmos no coletivo, no grande grupo.

           E essa formação cria pensamentos iguais a desses colegas, que antes de verem sua classe trabalhadora ameaçada, não faziam nenhuma menção a exploração de outros trabalhadores, ressaltando inclusive a “eficácia” de um sistema de trabalho que se aproxima da a servidão dos feudos, da escravidão, onde homens e mulheres trabalhadoras não tem sua mão de obra negociada por terceiros que visam apenas o lucro em cima da exploração dessa mão de obra.

           Paulo Freire nos alertava que, quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é tornar-se opressor, e isso fica claramente evidenciado quando, em ataques a determinadas classes trabalhadoras, outras classes não se articulam em prol das classes atacadas, fica em suas zonas de conforto, trabalhando cada vez mais sonhando em promoções ou salários mais altos, ou, no caso dos servidores públicos, confortáveis em sua estabilidade.

            Pois bem, o que se vê agora é um panorama de grandes lutas que se avizinham, direitos trabalhistas conquistados com muito esforço estão prestes a serem desmantelados, as oligarquias tradicionais, ruralistas e mega-empresários unidos pela destruição da CLT, articulando dentro das esferas de poder com representantes do executivo. Esse é um cenário que nos mostra o quanto se faz necessário a união da classe trabalhadora, de TODA a classe trabalhadora, para lutar unida contra todos esses ataques, especialmente dos ataques que vem das grandes mídias comprometidas com os poderosos, que valendo-se de seu alcance, classificam e rotulam protestos legítimos como atos de vandalismo, o que faz com que o trabalhador, que está no ônibus ou no seu carro, parado em um congestionamento, não veja a si mesmo refletido naquele protesto, não se identifica com a causa, e só pensa em chegar no seu trabalho para não ser demitido ou ter outros problemas com seus patrões.

            Deslegitimar a luta é um dos principais instrumentos utilizados, tanto pela mídia quanto pela classe conservadora, atrelando a esses atos notícias maliciosamente elaboradas para que o cidadão comum construa em seu entendimento a imagem de que todo o protesto é bagunça, alia-se isso a forte repressão das forças de segurança, que na verdade não defendem a população, mas sim o capital, e isto comprovamos, tanto nas coberturas jornalísticas, que se apressam em mostrar o trânsito interrompido ou algumas vidraças quebradas, quanto pela própria opinião pública, que louva as ações repressoras do Estado contra os protestos, e isso nos mostra o quando nos falta consciência de classe, de coletivo, pois desvinculamos todas as lutas com a nossa própria condição de trabalhadores, e essa questão ainda é mais forte quando nos referimos aos micro-empresários, em geral ligados ao terceiro setor, que também vendem sua força de trabalho, mesmo empregando outros trabalhadores, mas que pensam pertencer ao empresariado, sem levar em conta que, sem possuir os meios de produção e pertencer a classes sociais abastadas jamais serão considerados como iguais.

               O que nos falta, enquanto trabalhadores, é construirmos um espírito de corpo, uma consciência de classe, e que tenhamos em mente que, se não possuímos os meios de produção, somos proletários, trabalhadores, todos nós, e o destino de uma classe de trabalhadores pode vir a influenciar a todos as demais, logo a necessidade urgente de unificarmos todos em prol da luta, da defesa dos direitos trabalhistas, para que dessa maneira possamos fazer frente aos ataques que estão nos impondo e os que ainda irão nos impor. Em tempos de farinha pouca...que o pouco seja de todos!