sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O Ódio Comum...

Rafael Borba é licenciado em História pela Fapa, professor da Rede Pública Estadual.








O Ódio Comum...

Não é simples analisar um período histórico, mais difícil ainda é compreender o tempo histórico no qual estamos inseridos. Se despir da subjetividade e ser prático é um exercício complicado.

A atual conjuntura política de nossa sociedade é pautada pela polarização, opiniões e análises são rapidamente caracterizadas como sendo de “esquerda” ou de “direita” e o seu conteúdo será desprezado caso o ouvinte ou leitor se enquadre em uma posição diferente daquela que acredita ser a opinião do que esta analisando.

Este comportamento binário não ajuda no debate, é como se você estivesse constantemente pisando em ovos com medo de ser tachado de coxinha ou petralha (Aparentemente o corretor do Office é petralha, pois não me permitiu escrever este termo sem reclamar).

Outra problemática é a ânsia de opinar, todos querem tecer suas opiniões, comentar, argumentar, contra-argumentar. No entanto muitos comentam sem ter conhecimento o suficiente sobre aquilo que está sendo discutida, a política é um bom exemplo. Liberdade de expressão é, em minha opinião, diferente de afirmar que 1+1 = 3, é claro que você tem todo o direito de dizer isso, mas está necessariamente errado. No caso da política não é tão simples assim, os cálculos são muito mais complexos. É exatamente por causa desta complexidade que nos acostumamos com certas afirmações.

Infelizmente este cenário é propício para a proliferação de muitos argumentos ideológicos de ódio. Eles começam como desculpas, por exemplo: “Você entende que o colega tem uma opinião um pouco racista.”, mas perdoa porque no geral “ele é uma pessoa boa” ou porque, afinal, “ele não entende do que está falando”. Você convive com essas coisas, vai observando a realidade se transformar.

A solução para esta dicotomia não é simples, ela passa por tolerância e uma boa educação, uma mais libertária e humanista. Não é uma questão de dizer que não existe certo ou errado, é saber aceitar aquilo que é diferente, é compreender o direito do outro. Não é fácil, mas é fácil saber se você está errado:

É sempre aquele “Mas”:
Eu não sou racista, Mas...
Eu concordo com o feminismo, Mas...
Eu não tenho nada contra gays, Mas...
Hitler foi um tirano, mas...

E então ele esta ali na sua frente, um rinoceronte, como na peça Le Rhinocéros de Eugène Ionesco. Foi na época da minha graduação que um Artista, amigo meu, contou-me sobre o espetáculo, lembro que fiquei encantado com a ideia central do texto, rinocerontes andando para lá e para cá, primeiro eles causam espanto, mas com o tempo vamos acostumando com eles, algumas vezes até nos tornamos um.

Nós vamos acostumando com os discursos, com os “Sieg Heil”. Com certeza eles são rinocerontes andando na luz do dia, mas são cada vez mais comuns no cotidiano. Tão comuns que quando um aluno agride uma colega de profissão, eles se sentem comuns o suficiente para dizer que “ela mereceu!” Afinal ela não tem o mesmo discurso que eu. Não merece ser ouvida. Ela merece ser calada! Ela fica a mercê dos Rinocerontes, cada vez mais comuns.

E de onde eles vêm? Provavelmente do seu círculo de amizades, da empresa, de sua família, ele pode dormir do seu lado durante a noite e ele pode ser você! Mas eu tenho certeza de que ainda não são a maioria.

 Até onde consigo perceber, muitos não possuem a verdadeira dimensão de sua “opinião política”, mas aceitar neonazismo é um pouco demais para mim. Falta compreensão da democracia, da economia, da política. Eu pessoalmente engatinho nestes conceitos, estou longe de ser um Leandro Karnal ou um Ricardo Fitz, mas tenho certeza de que se a conclusão final são medidas mágicas como “matem todos” alguma coisa tem que estar errada, ou com o discurso ou com o individuo.

O direito político da nobreza feudal advinha de seu nascimento, era a legitimação final para o seu poder. “Sou porque assim nasci!”, para o nobre medieval a sua posição era um direito, um mérito.

O liberalismo surgiu como vertente antagônica a este pensamento, ele era a crítica ao antigo regime. Talvez eu seja um liberal ao criticar a classe Jurídica atual, descendentes da anterior? É claro que se pode afirmar que, para alçar ao cargo de juiz, você precisa ser merecedor, ter estudo, passar no concurso. Isso é verdade, mas ao filho do trabalhador, na escola pública atual, este direito lhe é negado.

Escola pública é o remédio para a “Rinocerontite”. Você não pode falar em igualdade e em sociedade capitalista enquanto não existir uma escola pública de qualidade e a resolução para isso não é assim tão complicada, ela se chama investimento.

Este investimento tem que vir de dois lugares, primeiro o financeiro. Você simplesmente não pode esperar que sem dinheiro existam condições físicas e de RH. O outro investimento tem que vir da sociedade, através do respaldo ao profissional, o professor é peça chave, nós merecemos ser respeitados.

Recentemente eu me dei conta de outro ganho que tenho na minha profissão, que vai além do monetário, é o reconhecimento que vem dos alunos quando eles te dizem que teu trabalho fez alguma diferença em suas vidas. Todo o professor faz isso, mas aqui estamos nós apanhando na cara e tendo que conviver com os rinocerontes. A única solução para isso é a escola pública de qualidade.

Com relação à polarização política, é muito mais complicado.

Talvez para alguns, este seja o texto de um petralha, para outros o texto de um coxinha...
Na verdade é o texto de um professor tentando compreender a atual polarização do pensamento político e pedindo maior investimento em educação.

Talvez a sua solução seja outra, a luta de classes, o desenvolvimento econômico, qualquer que seja ela eu tenho certeza que é inatingível sem educação de qualidade para o cidadão.
Isso se o seu objetivo for uma sociedade igualitária. Igualdade só é possível quando os índividos possuem as mesmas condições, o que está muito distante da realidade, a meritocracia não funciona se você sobe na vida por indicação, vindo de uma família rica.

A solução para a polarização política? Essa a mais difícil, ela passa por muito conhecimento. Visões políticas antagônicas sempre vão existir, mas o debate não pode ser rebaixado a uma briga de torcidas, é necessário encontrar soluções e objetivos em comum, exceto com os rinocerontes, em minha opinião.

Você precisa saber se o discurso político que defende é realmente aquilo que você espera ou acredita. É preciso aceitar a possibilidade de que você esteja errado, de que talvez você não tenha lido o suficiente, de que talvez você não saiba do que esta falando. Isso não quer dizer que você deva se calar, apenas que não é necessário defender com unhas e dentes o seu argumento e se recusar a ouvir aqueles que discordam.

É preponderante saber ouvir!

Os rinocerontes? Eu acredito que eles ainda não aprenderam a ouvir.

 Se eu acho que devemos ouvir os Rinocerontes? Não, nem toda a ideologia é valida. Devemos parar de dar espaço para o ódio, o racismo, o preconceito, o machismo, a tortura e a ignorância. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O ataque que vem do lado e do vácuo da consciência




Daniel da Luz Machado é Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela UFRGS



O ataque que vem do lado e do vácuo da consciência






            Ousar a falar no termo “consciência de classe” nos dias atuais, pautados pelas dicotomias e reducionismos,  é procurar isolamento, brigas ou  olhares de má vontade de muito de nossos pares. É impressionante como o significado de ter consciência de alguma coisa, nesse caso ter consciência da classe a qual pertence, parece te ligar a uma questão puramente ideológica em termos políticos.

            A imensa cruzada contra política disseminada pelas elites, aliás, é tema para outra reflexão e voltando para o tema proposto, embora Marx e outros pensadores abordem com frequência o conceito de pertencimento de classe e por consequência a noção que o trabalhador deva possuir do contexto ao qual está inserido, isso de forma alguma monopoliza a expressão a ponto de fazer com que aqueles que não comungam dessa corrente de pensadores, não possam ter consciência de si mesmo e das estruturas sociais as quais estão submetidos.

            Atualmente confunde-se em larga escala, possibilidade de crédito, faixa de ganhos salariais e determinados benefícios, ou até mesmo grau de instrução como balizadores de pertencimento social.

        Falta a grande parte da população a noção exata do seu papel diante das engrenagens sociais. Um médico que precisa trabalhar em duas ou mais clínicas e não for herdeiro de negócios familiares e se encontra muito longe de ter seu consultório próprio é trabalhador; um professor universitário que não tiver sua própria rede de escolas ou sua própria faculdade é trabalhador; o gerente de uma rede de varejo se não for filho dos donos é trabalhador. 

            Trabalhadores não são apenas os que prestam serviços sem o glamour social e com remunerações  menores e defasadas. Trabalhadores são todos que vendem a sua força de trabalho para sobreviverem e isso  goste ou não transcende as questões marxistas e demais pensadores da sua corrente, isso é a mais pura e relevante realidade e quando isso não é assimilado os poderosos, dos quais não somos colegas de classe, aproveitam para impor ainda mais os sacrifícios pelos quais muitos reclamam e até se tornam apolíticos  em decorrência.

            Urge a compreensão por parte de todos dessas noções, para que cessem os ataques aos que estão ao nosso lado e se dispõem a lutar por direitos que contemplarão uma classe.
            Em tempos uma pequena mobilidade social, muitas vezes está inserida dentro do seu próprio ethos, onde você melhora economicamente em relação aos seus pares, mas isso de forma alguma te eleva ao status de classe dominante, pelo contrário você é apenas um trabalhador, ainda que bem remunerado se vendes tua força produtiva, não serás nada, além disso.
           



sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O calar das panelas: elas nunca foram contra o PT....

O calar das panelas: elas nunca foram contra o PT....

Sérgio Pires - Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, bacharelando em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia, pela UFRGS.





O calar das panelas: elas nunca foram contra o PT....

Avenidas completamente lotadas de pessoas protestando, rostos pintados de verde e amarelo, camisetas da CBF, faixas pedindo o impeachment, pedidos de democracia e de intervenção militar (entenda-se esse paradoxo!), grandes patos amarelos seguidos como se fossem divindades redentoras, e danças coreografadas, além, é claro, de um bom champanhe, afinal, para aparecerem na ampla cobertura televisiva, era necessário um pouco de ostentação.

Qual a motivação desses protestos domingueiros? O que estava realmente em jogo nos intensos movimentos em favor do impeachment? Quem compunha aquela massa verde e amarelo que tomaram as ruas pedindo a saída do PT do poder?

Muito motivados pelos espetáculos dos grandes furos de reportagem, a cargo, é claro, da emissora mais poderosa do país, apresentados pelo Pop Star da República de Curitiba, e também por pseudo-intelectuais, como Carvalhos, Frotas, Lobões e etc., essa grande massa verde e amarelo se mobilizou de modo intenso, afinal, era necessário, questão de soberania nacional, acabar com a corrupção no país, tirando o principal culpado por todos esses escândalos, segundo a confiável revista “Olhe” e o canal “plom-plom” de televisão.

Pois bem, através de um julgamento político, o PT foi tirado do poder via impedimento, uma vez que, pedaladas fiscais eram algo mortalmente ilegais, coloco o verbo no passado porque esse é o tempo correto, pois logo após assumir o cargo de presidente da república, letras minúsculas sim, as pedaladas passaram a serem oficiais, regulamentadas por lei, o que na verdade eram uma prática corriqueira na administração pública.

O que podemos verificar a seguir ao impedimento, o que de acordo com a grande massa domingueira salvaria o país, foi, na verdade, uma série de articulações e escândalos promovidos pelas delações, não as da República de Curitiba, pois essas têm o crivo e a edição do Pop Star, mas sim as da PGR, que mostraram a intensa negociação de propinas entre altos cargos do executivo, inclusive do próprio presidente, com escutas, gravações e filmagens, que provam o quanto de corrupção este governo fez e ainda vem fazendo.

De modo estarrecido, observamos helicópteros carregados com cocaína serem apreendidos em terras de senadores da república, ouvimos escutas telefônicas combinando pagamento semanal de propinas para manter certo deputado, que não é tucano, de bico fechado; outra escuta onde, além de combinar quais seriam as nomeações na justiça federal, dava a entender ordens de execução, ainda teriam outros escândalos para elencar, mas quero fechar com o maior de todos: 14 bilhões do dinheiro público destinados para salvar o presidente da investigação por corrupção...parece impossível? Mas não foi, aconteceu exatamente assim, liberação dessa soma absurda e o arquivamento do processo, e, claro, quem investe um montante desses quer prestação de contas, e em virtude disso, quem votou contra será convidado a se explicar...pois é.

E as panelas que bradavam contra a corrupção? E os protestos domingueiros no Parcão, na Paulista ou no Leblon? As camisetas da CBF, onde estão? Por onde andarão aqueles dançarinos, que em louvor ao pato da fiesp, dançavam pelo fim da corrupção? E as belas senhoras com seus pets e champanhe? Nada, em lugar nenhum, nenhuma panela bateu ante tanta corrupção explícita! Será que ficaram concentradas em mais um show do Pop Star de Curitiba, que tentou encortinar toda essa situação com a sentença do Grande Operário? Não, elas estavam mesmo em silêncio, panelas nos armários, tintas retiradas dos rostos, camisetas da CBF no guarda-roupa, e os patos desinflados...

Afinal, não eram estes que protestavam contra a corrupção? Onde estavam eles então nesse momento da história do país? Momento esse que estamos servindo de chacota na imprensa internacional.

Creio que, antes de sabermos onde estão, é mais importante sabermos quem são eles. Aquela grande massa em verde e amarelo era composta, não de um grupo homogêneo, mas sim heterogêneo, onde podemos destacar uma grande parcela de pobres que, por aumentarem, não sua renda, mas seu poder de endividamento, e dessa maneira conseguir comprar bens de consumo, acreditando pertencer a classe média; integrantes da classe média, baixa e alta, e também integrantes das classes mais abastadas.

O real motivo de saírem às ruas, não era o impeachment, nem o PT, e tão pouco a corrupção, pois  estão coniventes com ela, mas o que de fato os impulsionava, e que os faziam gritar a plenos pulmões é pura e simplesmente o ódio aos Pobres, à Classe Trabalhadora, à População Negra, aos Movimentos Sociais, aos Indígenas, ao Movimento LGBT, e tantos outros segmentos minoritários.

Nesse país, durante o tempo que era colônia de Portugal, existiu uma ordem natural na sociedade, que hierarquizava relações e espaços sociais, e para muitos que pertencem às classes mais abastadas, essa ordem ainda vigora, e quando um governo promove uma quebra desse paradigma, o ódio e a repulsa de nossa elite entreguista vem à tona, e com toda a sua força o destilou  ao ver Pobres, Negros e Indígenas nas universidades, lado a lado com seus filhos, ao ir ao aeroporto e se deparar com um Pobre na fila do embarque, a ter que, com sua caminhonete importada, dividir as vias com os carros populares, ao ver que as terras de suas famílias podem diminuir pela demarcação de terras Indígenas e Quilombolas, e ao ter que assinar a carteira de trabalho de sua doméstica que agora tem direitos assegurados.

Os protestos domingueiros nunca foram contra o PT ou a corrupção, mas sim contra o povo, sim, esse povo que pega ônibus, que luta diariamente, que paga seus impostos, que constrói a riqueza desse país com seu trabalho duro, seja no campo ou na cidade, e que teve uma melhora significativa em sua vida através do desenvolvimento de políticas públicas voltadas para essa população.

A ascensão econômica, cultural e educacional das classes populares, nunca foi aceita pelas elites deste país, que acreditam que a População Pobre existe para serví-los, e somente isso, para essa elite é inadmissível ver pobres se formando no Nível Superior, pois tem é que no máximo saber ler e escrever para poder trabalhar. Políticas de distribuição de renda? Jamais, isso é assistencialismo, tem é que voltar a trabalhar em condições análogas à escravidão. Direito trabalhista? É empecilho para o pleno emprego. Reforma agrária? Nunca, isso é dar terra para vagabundo. Cotas em universidades ou concursos públicos? Absurdo, somos todos iguais, basta se esforçarem. Demarcação de terras indígenas e quilombolas? Imagina, eles nem sabem o que fazer com a terra. É dessa maneira que as elites pensam, e foi por isso que saíram às ruas, ajudadas por uma massa de pessoas que compraram o discurso da meritocracia e acreditam fielmente que se tornarão ricos somente trabalhando, e para garantir seus privilégios seculares, provenientes da exploração do povo e da máquina pública.

Não meus amigos, as panelas nunca foram contra o PT ou a corrupção, mas sim contra as classes populares, que, ainda que por um breve tempo, vislumbraram um futuro mais justo, democrático e igualitário!




segunda-feira, 31 de julho de 2017

A Inércia é sua, a conta é nossa



Daniel da Luz Machado é Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela UFRGS









A inércia é sua, a conta é nossa


Iniciando a leitura da obra “Os Bestializados” de José Murilo de Carvalho, na introdução visualizo uma frase que instantaneamente me faz pensar o momento que estamos vivendo em termos políticos no Brasil.
“Todo sistema de dominação, para sobreviver, terá de desenvolver uma base qualquer de legitimidade, ainda que seja a apatia dos cidadãos.”
(José Murilo de Carvalho)

Essa frase é mais do que emblemática para o texto que produzo e começo a compartilhar com o leitor, ela é o próprio reflexo da inércia que engloba enorme parte da população brasileira frente a desfaçatez de um governo federal golpista e autodestrutivo que começa, tal como efeito dominó, a dar sustentabilidade a governos estaduais e municipais a seguirem um verdadeiro genocídio ao estado (combalido) de bem estar social brasileiro.
O livro “Os Bestializados” do Professor José Murilo de Carvalho é uma revisita a um período histórico de longa data da cidade do Rio de Janeiro, mas o quesito da apatia dos cidadãos, parece extremamente atual e disseminado em todo território nacional.
Pegando o recorte do funcionalismo público e em especial o funcionalismo gaúcho, o que estamos vivenciando na administração do Governador Sartori é algo que ultrapassa as barreiras do terrorismo psicológico e da surrealidade administrativa.
Parcelamento de salários, parcelamento do 13º salário, total sucateamento da educação, saúde e segurança que são pilares básicos que um estado que zela pelo cidadão deveria atender caíram por terra, já nos primeiros meses de uma pífia administração que sem nenhuma dúvida é a pior que o estado do RS presenciou.
Os choques neoliberais desde os primeiros dias de governo, em momento algum alavancaram a economia gaúcha, cuja situação ficou ainda mais claudicante com uma administração austera  (menos para Corte e amigos do Rei) pois as metas da equipe de Sartori no sentido de desenvolvimento, beiram a galhofa e o descrédito total.
E diante de tudo isso uma imensa massa de funcionários que no primeiro dia do calendário de pagamentos receberam a quantia de R$ 650,00 tendo que escolher se pagam a conta de luz ou de água, pois essas entidades fornecedoras desse serviço básico não os fornecem sem a devida quitação, ou se compram comida, não apenas votaram nesse governo anedótico como em um efeito digno de filme de zumbis, comparecem aos seus locais de trabalho como se nada estivesse acontecendo e o que é pior, sequer cogitam a possibilidade de declararem um estado de greve, muitas vezes atacando seus colegas que lutam por si e por eles.
Esse estado de inércia, com boas leituras pode ser desvendado, pois ao longo da história brasileira ele se repete com certa frequência.

 E desta forma a conta que muitos desinteressados e que adoram se declarar como apolíticos cada vez aumenta o valor e infelizmente na hora de ser paga cobra a todos nós, independentes de constantemente lutar por dias melhores.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Religião, Racismo e o Espaço Escolar: os desafios do professor no cumprimento da Lei 11.645.

Sérgio Pires - Licenciado em Ciências Sociais pela UFRGS, bacharelando em Ciências Sociais pela UFRGS com ênfase em Antropologia.




Religião, Racismo e o Espaço Escolar: os desafios do professor no cumprimento da Lei 11.645.


            Nesta semana ouvi o relato de um colega, professor de história da rede pública estadual, sobre as dificuldades que está encontrando no que se refere ao cumprimento da Lei 11.645, que inclui no currículo o ensino da história dos povos africanos (lei 10.639) e dos povos indígenas (ampliada pela lei 11.645.

            Pois bem, este professor nos relatou que, em uma turma de determinada escola, ele estava abordando os Grandes Reinos Africanos, como sabemos, bem antes da chegada dos europeus no continente africano, existiam grandes reinos, e o conteúdo do eixo temático era esse.

            Ora, quando abordamos civilizações, tanto antigas quanto modernas, no desenvolver da explanação do conteúdo são trabalhadas questões como localização, agricultura, organização social, organização política, e, é claro, a religião, obviamente sem um enfoque proselitista, mas sim informativo, uma vez que esta é uma característica muito forte e que se verifica em praticamente todas as civilizações.

            Quando o professor abordou sobre a religião deste reino, uma aluna, que se declarou ser evangélica, protestou contra o conteúdo, inclusive se negando a ao menos copiar o que foi passado no quadro, alegando que não era obrigada a ter contato que “coisas do demônio”. Um tanto aturdido com  a reação desta aluna, o professor explicou que não se tratava de uma abordagem religiosa do tema, mas sim da explanação de como era a religião daquele povo, e mesmo assim a aluna se manteve na sua postura, inclusive na aula seguinte, que era a seqüência do tema.

            Essa relato me deixou profundamente incomodado, muito por ter uma leitura da escola como um local de produção de conhecimento, de ciência, mas sobretudo, em uma visão freiriana, como um vetor de libertação, onde temos a oportunidade de nos libertar, não só das cadeias de reprodução social, mas também de questões como racismo, preconceito e intolerância, em especial nesse caso a intolerância religiosa.

            Compreender a escola como um local de diversidade cultural, uma vez que os alunos trazem consigo suas bagagens culturais, é fundamental neste processo de aprendizagem e da própria criação das identidades , uma vez que é na alteridade é que construímos, definimos o que somos ou não, mas sobretudo desenvolvendo o respeito ao diferente, ao outro.
           
            Quando vejo reações como dessa aluna, me faz refletir acerca de como a diversidade é abordada nos currículos escolares, uma vez que, não descartando obviamente a participação da família na formação do aluno enquanto ser social inserido nesse espaço de socialização que é o familiar, a escola deve pensar de modo muito consciente na elaboração de seus currículos, que devem abordar de modo positivo a diversidade, abandonando os modelos tradicionais de educação, que em grande parte das vezes desempenha um papel reificador de questões como o racismo e o preconceito, ao invés de desconstruí-los.

            Questões de foro íntimo, como religião, que é o viés principal dessa discussão, devem ser respeitadas no âmbito escolar, contudo, não deve interferir na vida escolar do aluno, salvo questões de ordem prática, como sabatistas por exemplo, mas quando se pensa em questões curriculares, não é admissível que, por ter determinada crença, o aluno deixe de cumprir o que se espera desta função social, colocando sua religião, que é de foro íntimo, como norteador do que se aprenderá na escola ou não, que é um espaço social de foro público, logo, esses dois foros não devem ser confundidos, assim como a função social de aluno ou de membro de determinada religião.
           
            A escola, portanto, é lugar de ciência, de aprendizagem, onde os atores sociais envolvidos apresentam uma grande diversidade cultural, e essa diversidade deve servir para enriquecer as relações sociais na escola, sem contudo interferir no processo de formação do currículo, especialmente tendo a religião, que é um fator pessoal, como crivo.

            A importância da aplicação da Lei 11.645 é fundamental, e para que efetivamente seja parte integrante do currículo, não meramente por obrigatoriedade, mas sim por um entendimento dessa importância por parte de toda a comunidade escolar, que é múltipla e diversa, e que essa diversidade seja fator de enriquecimento da educação, jamais como vetor de tolhimento, de limitação do saber e da produção do conhecimento.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A Falange Espartana e a atual crise no Planalto...

Sérgio Pires - Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, bacharelando em Ciências Sociais pela UFRGS, com ênfase em Antropologia.





A Falange Espartana e a atual crise no Planalto...

Como amante de cinema como sou, possuo uma grande coleção de filmes, dos mais variados gêneros, de cults aos blockbusters, e sempre que posso faço sessões de cinema com meus filmes favoritos, que obviamente tem um lugar de destaque na estante.

 Nesses dias enquanto estava organizando a estante, me deparei com o filme 300,  estrelado pelos atores Gerald Butler e Micheal Fassebender, que conta  saga de Leônidas, rei de Esparta, e seus 300 guerreiros que lutaram contra o numeroso exército de Xerxes, que buscava a dominação de Esparta pela Pérsia.

Uma das cenas do filme que sempre me chamou a atenção, mostra uma conversa entre Leônidas e o Efialdes, o corcunda, onde ele alerta o rei sobre um antigo caminho de bodes, que poderia servir de caminho para os persas atacarem os espartanos, saindo do estreito caminho de Termópilas, os atacando de surpresa. Nessa conversa, Efialdes pede ao rei para fazer parte no combate, como soldado espartano, e Leônidas, em resposta,  pede a ele que levante seu escudo o mais alto possível, tarefa que  não pode ser cumprida devido a sua deficiência física, e o rei então lhe explica que, o grande segredo da falange espartana é que o guerreiro protege o guerreiro ao seu lado, erguendo o escudo do joelho ao pescoço, uma só falha e a falange se estilhaçaria, e em virtude disso Efialdes não poderia ser utilizado como um guerreiro espartano.

Após essa ilustração, gostaria de falar um pouco sobre a atual conjuntura da crise política em nosso país, mas, qual a relação entre a crise política e a falange espartana? De modo algum quero comparar as duas histórias, e menos ainda os personagens de ambas, mas o que tenho observado no atual cenário político é justamente a explicação de Leônidas no que se diz respeito a proteção, obviamente não sob o aspecto da guerra, nem de guerreiros que lutam pela liberdade de seu povo e contra a opressão, mas sim no protecionismo que está muito presente na política brasileira, e nesse sentido quero falar pontualmente sobre a falange que está sendo armada para proteger e manter no poder o presidente Michel Temer.

As denúncias provenientes de farto material produzido por integrantes ao alto empresariado do país, mostram como um esquema gigantes de corrupção passiva e ativa, atua no país, além de evidenciar o envolvimento direto de integrantes dos 3 Poderes, perpassando por ministros do STF, senadores, deputados, ministros, e do próprio presidente da República, que já contava com altos índices de rejeição.

O que se espera em uma situação como essa é a busca de esclarecer todos os fatos, e que os culpados sejam punidos de acordo com seus crimes cometidos, contudo, o que se tem observado, seja na imprensa, seja nos pronunciamentos oficiais, é todo um estratagema sendo montado para proteger os envolvidos, capitaneado pelo próprio presidente Temer, que, em pelo domingo, realiza uma reunião na Sala de Banquetes do Palácio, para organizar e tecer estratégias políticas de sua manutenção no poder. Dentre os convidados, nada mais nada menos que o responsável por receber ou não os pedidos de impeachment, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do Democratas, que já afirmou, sem pestanejar que não aceitará nenhum pedido de impeachment, que já estão sendo enviados, inclusive da OAB.

Toda essa articulação do executivo federal, da câmara e do senado, e inclusive de membros do STF, me lembrou a falange espartana...mas apenas na função de proteger, pois em nada se compara com o que está acontecendo na capital federal, pois enquanto em 300, assistimos a história de  homens leais ao propósito de salvaguardar seu povo, sacrificando suas vidas para tanto, em nosso cenário político brasileiro, estamos assistindo homens, sem o menor escrúpulo, arquitetando maneiras de barrarem os processos que estão por iniciar e desqualificar todas as denúncias que incluem seus nomes, em total detrimento da ética, da honestidade, e da fé pública.


Escudos estão sendo levantados, os guerreiros do mal estão protegendo uns aos outros contra o ataque da verdade e da justiça, visando unicamente salvar suas peles, suas vidas políticas e seus vultuosos patrimônios construídos de maneira ilícita, através do suor do contribuinte e de dinheiro sujo decorrente de operações fraudulentas.

A nós, todos nós, cabe impedir que essa proteção resulte em um esquecimento de todas essas denúncias, não podemos nos calar diante de tais absurdos. Que nossa resistência possa ser maior do que a capacidade que eles tem de se protegerem, que nossas vozes possa ecoar mais alto e mais longe, seja de modo virtual, mas especialmente tomando as ruas, defendendo a legalidade e a justiça, e a punição para todos os envolvidos, a começar pelo próprio presidente Temer, que ascendeu ao poder através de um golpe e detentor de um dos índices de rejeição maiores da história do presidencialismo brasileiro.

Á Leônidas e seus 300 a história lhes relegou um lugar especial, de reconhecimento pelo seu sacrifício, e quanto ao nossos “protecionistas”, que a história possa lhes relegar o justo por seus atos obscuros, ou seja, que jamais se apaguem dos livros os atos por eles cometidos, e que nós, enquanto eleitores, possamos desenvolver a consciência e o hábito de buscar sim na história as informações necessárias para refutar qualquer candidatura de políticos como esses, que mancham a trajetória de  nossa jovem democracia, e nada mais fazem a não ser defender seus interesses próprios e dos grandes grupos que o representam.

terça-feira, 9 de maio de 2017

As minorias sob o peso dos meus pés


Daniel da Luz Machado é Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela UFRGS

As minorias sob o peso dos meus pés


            Os mais céticos certamente não imaginaram o quadro de retrocessos históricos aos quais  o Brasil vem sendo submetido nos últimos meses. A cada  atrocidade contra direitos historicamente conquistados e consolidados, um certo estado letárgico parece tomar uma grande parte da população que já nem tenta reagir diante de tamanha desfaçatez gerada pela elite nacional.

            É claro que os movimentos sociais, bem como uma parcela significativa da juventude estudantil, as lideranças dos trabalhadores envolvidos  e alguns setores mais progressistas da classe média (infelizmente minoritários na sua classe), alguns políticos oposicionistas com compromissos honestos com seus eleitores tentam e não esgotam as tratativas de resistência e manutenção dos direitos adquiridos, porém na calada da noite com muita compra e venda de votos, muita pressão e maracutaias  as decisões mais esdrúxulas vão nos jogando quase que diariamente um banho de água fria.
            Mas em que momento histórico o trem resolveu descarrilar? Com o perdão do trocadilho, a justa falta do conhecimento histórico é o que mais prejudica a capacidade analítica da população, para escolher caminhos mais transitáveis.

            Falando especificamente de dois grupos minoritários que estão sendo muito atacados em seus direitos os Indígenas e os Quilombolas, basta ver  os constantes absurdos que estão sendo cometidos com esses dois coletivos. Em relação aos Índios a loucura é tanta que a presidência da FUNAI foi concedida a um pastor evangélico que desconhece como poucos as cosmologias dos povos indígenas, basta ver suas declarações absurdas que fazem corar a qualquer estudante de primeiro semestre de antropologia. Quanto aos Quilombolas a negativa e a morosidade na titulação de terras, além de CPIs esdrúxulas constrangendo técnicos e antropólogos  se fazem repetir por uma classe política que na sua maioria conhece apenas o cosmo de seus interesses ou dos jogos internos da vida partidária.


            Mas o porquê desses grupos minoritários estarem sendo tão atacados nesse governo de aura fascista que se instalou no Brasil? Ai entra o papel da história tão afastada da população para que ela não possa elucidar seus pensamentos e se torne presa fácil e venha a reproduzir o discurso do opressor.
            A historiografia brasileira é plural, controversa às vezes, porém muito rica com uma quantidade de obras que instruem e desmistificam determinadas posições maquiavelicamente orquestradas pela elite na intenção de se perpetuarem no poder.
            Mitos como a democracia racial caem por terra quando se tem acesso a obras do quilate de “A Construção Social da Cor” do professor José D’Assunção Barros que  traça um enorme panorama de como se constrói  socialmente diferenças que vemos a olhos nus na sociedade brasileira.

            Livros como As identidades do Brasil do Professor Jose Carlos Reis, mostrando como nossa identidade cultural foi concebida e tantos outros não fazem parte do cardápio literário brasileiro que fica “desnutrido” dessas informações altamente palatáveis e revigorantes e que pela sua ausência não conseguem entender o processo de exclusão indígena que iniciou desde a vinda dos portugueses até os dias atuais.
                                                                                                                                                                              Desta forma com tanta falta de informação, grande parte da sociedade  permanece imobilizada diante das botas das elites que pisam e esmagam sem a menor cerimônia.