segunda-feira, 23 de março de 2020

O comportamento de “Seita” e a vontade de ouvir somente o que convém





Daniel da Luz Machado - Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.





Nos dias atuais diante dessa calamidade pandêmica que assola diversos países de diferentes continentes, o conjunto de preocupações que assola uma grande parte da população é com o quê está por vir? Como enfrentaremos e sairemos dessa crise? As vidas como serão tratadas e modificadas? O quê a crise coletiva representará para cada indivíduo? Enfim os questionamentos são múltiplos e pertinentes, todos embasados na perplexidade com que esta pandemia deixou um contingente de vidas findadas.
Neste cenário ruim, esperamos que as lideranças em seus diversos âmbitos de gestão, nos acenem com algumas perspectivas de travessia desse mar revolto com o menor efeito de perda colateral. É chegado o momento em que posicionamentos ideológicos suplantem suas diferenças na busca pelo equilíbrio e o bem estar social e que todos nós possamos realizar a nossa parte no sentido da prevenção e da colaboração para minimizar os efeitos da propagação do Coronavírus.
Enquanto lideranças espalhadas pelo mundo inteiro se posicionam da maneira esperada pelas suas respectivas sociedades, aqui no Brasil nosso Presidente a cada instante se supera na arte de ser inqualificável, de ter atitudes inaceitáveis com o cargo que ocupa, de demostrar uma falta de empatia, de capacidade gestora, de respeito com o povo brasileiro. O Presidente do Brasil talvez não tenha sido avisado pelo seu staff de que as eleições presidenciais acabaram e que ele como vitorioso deveria de forma imediata governar para toda nação e não apenas para as elites e que em um advento de exceção como é esta pandemia, o mínimo de postura e respeito pelo temor coletivo seria de bom tom.
O Presidente Bolsonaro exacerba seu revanchismo e seu despreparo intelectual e cognitivo para assumir um cargo da envergadura que ocupa e cada instante parece fazer questão de “meter os pés pelas mãos” com pronunciamentos e aprovações de medidas que vão na contramão do que estamos vivendo.
É exatamente nesse ponto que o comportamento de “Seita” por parte de muitos de seus eleitores acabam se manifestando e dando origem a essa humilde análise.
Tanto em conversas em diversos ambientes, como lendo declarações em redes sociais e entrevistas é inacreditável o quanto o apoio cego e incondicional as bizarrices provocadas por Jair Bolsonaro se propagam. A adesão as suas estapafúrdias medidas e pronunciamentos, transcendem classe social, nível de escolaridade e quaisquer outros aspectos. Os seus defensores o protegem apenas pelo ato da proteção em si. A medida pode ser ruim para todos, mas a vassalagem é unânime em dizer coisas do tipo: Ah! Mas ele não quis dizer isso; Essa história não é bem assim; Os Jornais “A” “B” ou “C” são comunistas; Quando era o PT vocês não falavam, enfim torna-se extremamente desgastante a tentativa de argumentação, de tentar trazer luz a uma discussão, pois simplesmente os ouvidos se fecham e você que o sujeito vai ficando agressivo e o melhor caminho é encerrar o diálogo pois ele não chegará a lugar algum.
Étienne de La Boétie na sua ótima obra “Discurso da Servidão Voluntária” escrita no Século XVI nos diz que: “ É o próprio povo que se escraviza e se suicida quando, podendo escolher entre ser submisso ou ser livre, renuncia à liberdade e aceita o jugo; quando consente com seu sofrimento, ou melhor, o procura”.
Isso me parece ser claro nos seguidores do Presidente, que poderiam exercer a liberdade de romper com ele, visto que as promessas de campanha em momento algum estiveram perto de serem cumpridas no seu sentido mais completo. Bolsonaro atendeu apenas prerrogativas armamentistas. O combate a corrupção, a gestão sem viés ideológico, o crescimento econômico tudo não passaram de falácias e ainda por cima uma série de declarações e medidas que ferem grande parte de seus apoiadores, que absurdamente ainda mantém a defesa de seu mandato e de sua imagem.
Outras obras literárias que saltam a minha mente diante da desfaçatez de defender a gestão desse Srº e entender esse comportamento idiotizado da sua defesa são: Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley; A Revolução dos Bichos e 1984 de George Orwell e O Homem que amava os cachorros de Leonardo Padura, todas obras que oferecem uma boa reflexão a respeito da incapacidade de romper com certas surrealidades.

BIBLIOGRAFIA:

BOÉTIE, Étienne de La - Discurso da Servidão Voluntária;
HUXLEY, Aldous - Admirável Mundo Novo;
ORWELL, George - A Revolução dos Bichos;
ORWELL, George - 1984;
PADURA, Leonardo - O Homem que amava os cachorros.




segunda-feira, 16 de março de 2020

Obscurantismo e irresponsabilidades no comando do cotidiano


Daniel da Luz Machado - Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.



No último dia 15 de março, na contramão do bom senso, usando a prerrogativa democrática de pedir o fim da própria democracia, inúmeras pessoas estiveram as ruas de diversas cidades num ato pró-governo. Manifestar apoio ou críticas a um governo “A” ou “B” é do jogo democrático, não questiono essa premissa, mas o que leva inúmeras pessoas contradizerem orientações no sentido de precaverem a sua saúde e a de outras pessoas muitas vezes extremamente próximas ?
Ciências como a Psicologia, Sociologia, Antropologia, História certamente oferecem uma grande quantidade de conceitos e estudos que explicitam e explicam esse comportamento irracional de ignorar todas as falas que a comunidade internacional de saúde tem manifestado no sentido de nos orientar contra essa pandemia do coronavírus.
Vou me ater ao sentido do indivíduo sentir-se apto a proceder de forma “X” ou “Y”, quando este percebe que sua visão de mundo é legalizada pela oficialidade.
O Presidente brasileiro extrapolou de todas as formas a sua visão irascível em relação a ciência, em relação a liturgia do cargo que ocupa, em relação a normas minímas de civilidade, de erudição, de compreensão de tempo e espaço.
Já é uma insanidade na ótica democrática um chefe do executivo postar-se dessa maneira contra o parlamento, que a respeito de ter inúmeros representantes ruins, não deve ser este o modus operandi para equacionar e suprimir as defecções do poder legislativo.
Quando nosso mandatário aparece em público para prestigiar seus apoiadores , mesmo com a comunidade científica orientando precaução e evitar aglomerações, o recado dado e assimilado pelos seus correligionários é a de que a ciência não serve para nada, que basta o “Mito” frasear que eu sigo. Nem o rebanho rumando ao matadouro é capaz de tanta abnegação pelo seu sacrifício!!!
Não se trata mais da dicotomia entre “Direita” ou “Esquerda” e sim de percebermos o quão profundo é o abismo que estamos mergulhando no Brasil. Grande parte da população brasileira assumiu o comportamento de seita, já não basta mais discordar, mas é imprescindível defender as ideias do meu líder independentes do grau de sanidade que elas representem, afinal o mantra da minha opinião é o que vale e dessa forma seja bem vindo o retorno da idade média e quiçá em pouco tempo possamos voltar ao PALEOLÍTICO aqui no Brasil e riscar nas rochas “MITO” com desenhos de lança, pois arminhas são coisas do presente e de comunistas.


quinta-feira, 12 de março de 2020

Gostaria de saber quando a esquerda brasileira vai voltar a ser esquerda.



Jefferson Meister Pires é Bacharel em Ciências Sociais pela UFRGS, funcionário público e pesquisador.





Gostaria de saber quando a esquerda brasileira vai voltar a ser esquerda.

                    A cada semana que passa não consigo parar de pensar em qual será o próximo vexame que vamos passar, sejam os vexames reiterados por parte deste presidente e sua equipe, vexames estes que já estão se tornando parte do nosso dia-a-dia, naturalizados, previstos; Ou sejam os vexames sazonais reiterados por parte de nossos auto proclamados “representantes do pensamento de esquerda”.
                       O atual vexame está diretamente relacionado com a mais recente polêmica do embate Direita Vil X Esquerda Interesseira e está assentada na importante reportagem estrelada pelo Dr. Drauzio Varela no programa Fantástico da TV Globo¹ que foi veiculado no dia 08/03/2020, mais conhecido como último domingo.
                Antes de entrar no tema deste artigo preciso desabafar, pois não consigo entender como algumas pessoas ainda se espantam com as reações da direita brasileira acerca de problemas e pautas as quais sempre consideraram inúteis, eles estão cada vez mais inflados com as redes sociais e com o apoio popular do qual nem sabem porque recebem. Nossa direita sempre foi assim, sempre viveu de distorções, retirada de contextos, dados falsos e imprecisos,etc. A diferença é que agora com o advento das redes sociais ficou muito mais fácil ser estúpido (em todos os sentidos da palavra), só quem nunca esteve no debate é que se espanta com o nível baixíssimo do quadro “intelectual” da direita no Brasil.
                É claro, óbvio, natural, batido, comum que os interlocutores representantes de uma elite econômica irresponsável vão utilizar quaisquer dissonâncias no discurso “da esquerda” com os anseios do cidadão “comum” para cada vez mais nos jogar no abismo do obscurantismo. Não é a toa que nas últimas eleições fomo surrados como não se via há vinte e tantos anos, não é a toa que as pesquisas de opinião² refletem cada vez mais posições contrárias ao que nós da esquerda acreditamos serem os caminhos corretos, parece que estamos marchando contra o povão, ao invés de estamos ao lado ou no mesmo barco.
           Custo a acreditar que algumas de nossas vozes mais conhecidas, como por exemplo o youtuber filósofo Henri Bugalho³ e o Jornalista/Blogueiro/Colunista Leonardo Sakamoto4, entre outros, não conseguem entender questões básicas como a diferença entre preconceito e repulsa. Para entendermos esta crítica temos que entender primeiro o conteúdo da matéria global, onde a transexual Suzy, abraçada por Dráuzio, cometeu um crime hediondo. Alguns perguntam: E Daí? Eu respondo: E daí que esse crime o qual ela cometeu atinge os mais profundos medos, dores, sentimentos de nossa população de majoritária moral cristã, ou judaico/cristã como diriam os mais cultos, este crime gera uma repulsa quase incontrolável na maioria das pessoas. Suzy não roubou um mercado, não roubou um carro, não agrediu uma senhorinha na saída da igreja, Suzy violentou sexualmente e depois asfixiou de forma brutal o menino que se chamava Fábio dos Santos, com então nove anos de idade, sem a menor chance de defesa.
                 O problema para nós que nos sentimos esquerda nunca foi e nunca será o abraço de Drauzio em Suzi, até mesmo o pior criminoso que possamos imaginar pode receber um abraço como uma forma de mostrar que neste mundo há compaixão, embora Suzy não a tenha sentido no momento que praticou o crime. O problema para nós enquanto esquerda surge quando tentamos afastar o criminoso do fato cometido, isso nunca poderá ser feito, este fato vai andar ao lado de Suzy mesmo depois de cumprida a pena, pois o ato de matar alguém é indeletável (acho que essa palavra não existe), é impossível de ser esquecido.

              Podemos perdoar sim, podemos abraçar sim, mas jamais podemos querer esconder ou mascarar o que foi feito. A bendita reportagem tratava sobre o abandono e dificuldades extremas que os presos trans sofrem nos presídios masculinos e machistas, todas as outras trans foram abraçadas por Dráuzio, não vi ninguém reclamando disto. A Transexual Suzy não recebe visitas há oito anos porque cometeu um crime bárbaro e cruel e não somente porque é transexual, embora seja lógico dizer que o fato de ser transexual também tem peso nesse abandono, a reportagem poderia simplesmente ter dito que Suzy cometeu um crime bárbaro, cruel e devido a este ato hediondo E ao fato de ser trans, ou EM CONJUNTO com o fato de ser trans, não recebe visitas nem cartas há oito anos.

                     Karl Popper5 já nos ensinou há décadas que apenas baseados na observação jamais podemos afirmar que todos os cisnes são brancos, jamais podemos clamar como conhecimento científico aquilo que não considerar todos os fatos envolvidos no evento, tanto os fatos concretos assim como os abstratos possíveis de serem imaginados. Enfim, o que este episódio mostra de mais importante para nossa reflexão enquanto pensamento de esquerda é se nossas posições ideológicas são mais importantes que as ações, sejam elas prováveis ou improváveis, concretas ou abstratas, dados, estatísticos ou imaginativos...
                      Porque uma grande parte de nós se revolta veementemente quando um clube de futebol contrata o goleiro Bruno6, condenado por um ato brutal e torpe, mas não se revolta quando uma reportagem omite fatos e tenta passar uma idéia no mínimo equivocada da situação de outra pessoa que cometeu um crime brutal e torpe? Será que um dos crimes foi mais brutal que o outro? Será que nossa empatia é seletiva? Será que as pautas identitárias são mais importantes do que qualquer outra coisa? Suzy ao ser trans não é mais uma assassina confessa?
                       Em uma época não tão distante, nossa esquerda berrava contra criminosos de todos os tipos, contra impunidade, contra a Rede Globo, contra uma série de coisas que parecem hoje ser menos importantes do que conseguir espaço dentro do movimento X ou Y, ou aquele cargo importante na prefeitura. Eu vi uma esquerda que fazia reuniões à noite, em garagens e peças sem reboco, que tinha a fala muito longe da norma culta, que não viajava à Paris, que não tratava povo como imbecil e a si mesmos como guardiões da luz do conhecimento.
                       A esquerda em que eu iniciei andava de busão e trem, morava em periferia ou pelo menos ia nas festas da periferia, gostava de interior, tinha nojo de Estados Unidos e Europa, sentia repulsa pelos poderosos. A esquerda que me formou não usava terno, não comprava no Carrefour e nem comia sushi (confesso que sushi eu gosto, embora coma muito raramente), a esquerda que andava de braços dados com o povo não pisava em símbolos religiosos, mesmo sendo ateus, não contratava amigos com dinheiro público, não fazia promessa de cargos para conseguir apoio (aliás, denunciava isso) não tratava como criaturas inferiores aqueles que ocupavam posições inferiores.
                     Por fim não posso deixar de lembrar que algum escritor famoso certa vez disse que o proletário é (...) “uma esfera que possui um caráter universal por seu sofrimento universal e que não reivindica nenhum direito particular, uma vez que nenhuma injustiça em particular, mas sim a injustiça de modo geral, lhe é perpetrada. só se vê como pessoa quando primeiro se vê como proletário”...7
                   No meu entendimento trata-se de uma questão de pertencimento (ou não pertencimento), de falta de empatia. Quando passamos a valorizar diplomas mais do que conhecimento, quando tratamos alguns trabalhadores como nossos inimigos e outros como amigos, quando passamos a defender a idéia absurda de que pautas identitárias estão descoladas de outras pautas ou da principal pauta de todas, que sempre vai estar no fundo das questões, a desigualdade de oportunidades... 

                    Estamos trabalhando para nos afastar das pessoas e nos aproximar das idéias, estamos próximos dos discursos e longe do entendimento e da humildade de ouvir antes de falar. Dráuzio não fez nada errado ao abraçar Suzy, mas nós fizemos ao não criticar a Rede Globo por sua forma de apresentar a matéria. Nós acabamos dando armas para que uma direita desonesta e preguiçosa, “nós” damos de bandeja “nossos” equívocos pra que eles caiam de pau em cima e nos coloquem todos no mesmo angu, todos como anti-povo.
Repito: gostaria de saber se algum dia a esquerda brasileira voltará a ser esquerda.



Referências:
5 POPPER, Karl Rai. A lógica da pesquisa científica. 15. ed São Paulo: Cultrix, 2011.

7 MARX, Karl. (1843). A contribution to the critique of Hegel's Philosophy of Right: Introduction. In: Marx & Engels Collected Works (vol. 3).

terça-feira, 3 de março de 2020

Só agora, Bolsonaro?




Paulo dos Santos é Cientista Social pela UFRGS, mestrando em Ciência Política pela UFRGS.










Só agora, Bolsonaro?

Desde já, preciso reconhecer que não transito muito bem pela ironia, mas pretendo me utilizar dela no melhor sentido ao longo desse texto.
Iniciar o dia tem sido sempre um exercício. Nunca sabemos o que vamos encontrar ao acessar alguma plataforma de notícias, ou rede social. Acessamos o Twitter na expectativa de encontrar as mais variadas pérolas proferidas por aquele que ocupa a presidência da República.
Nesse dia 18 de fevereiro não foi diferente. Bolsonaro veio a público ofender a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha. O conteúdo sexual na sua fala é vil, repugnante. Reforça o machismo, a misoginia, o sexismo, a cultura do estupro. Jair Bolsonaro, o anti-Messias, é sórdido e canalha. Isso tudo a pouco mais de um ano da sua vitória eleitoral contra Fernando Haddad e Manuela D’Ávila nas eleições presidenciais. Afinal, como expresso no Editorial do Estadão logo na abertura do segundo turno das eleições de 2018, aquela eleição seria “uma escolha muito difícil”.
Mas tudo bem, suas pérolas são bravatas de alguém que “pode amadurecer”, até porque Bolsonaro teria a “chance de ouro de ressignificar a política do Brasil”. Ao menos essa era a aposta de Luciano Huck, o pré-presidenciável do PSDB para 2022.
No entanto, Jair Bolsonaro, dessa vez, foi longe demais. Atacar uma mulher da forma como ele atacou é algo inédito em sua biografia. Os ataques às e aos profissionais do jornalismo já era algo palatável, até porque as constantes bananas que ele tem distribuído à imprensa não é algo tão ruim assim. Mas, ofender uma mulher em pleno exercício da sua profissão, aí o anti-Messias foi longe demais.
Que bom que jornalistas importantes como Eliane Cantanhêde se posicionaram em suas redes sociais demonstrando vergonha com o ocorrido: “Hoje estou com vergonha e raiva do que o presidente do meu país falou. Não é contra uma jornalista, uma mulher, é contra nós, mulheres.”
Dessa vez a ofensa ultrapassa os limites da civilidade e do decoro. Dessa vez! Antes, quando gritávamos que Jair Bolsonaro era um assediador, alguém que usava da atividade parlamentar para reforçar a cultura do estupro, fazíamos sozinhos. Antes, quando dizíamos que ele era misógino, não encontrávamos eco.
É óbvio que a união das mulheres contra Bolsonaro e tudo o que ele representa é mais do que importante, é fundamental! No entanto, por que só agora? Por que Jair Bolsonaro não respondeu por quebra de decoro quando levantou a mão contra Maria do Rosário e a chamou de “vagabunda” no Salão Verde da Câmara dos Deputados? Por que não perdeu o mandato quando disse, da tribuna da Câmara dos Deputados, mais uma vez à Maria do Rosário: “só não te estupro porque você não merece”? Por que Bolsonaro não saiu preso do plenário da Câmara dos Deputados ao elogiar a memória de um dos maiores torturadores do período ditatorial brasileiro durante sessão do golpe da presidenta Dilma, enfurecendo apenas os “ativistas”, como exposto pela BBC em matéria veiculada logo após aquela sessão tenebrosa da Câmara dos Deputados?
Por que os insultos às mulheres de esquerda não geram comoção e arroubos democráticos da imprensa e dos partidos de direita?
Porque Jair Bolsonaro os serve!
A agenda econômica de destruição do Estado imposta por Paulo Guedes é comemorada pelos jornalões e pela direita brasileira. Rodrigo Maia abre as portas da Câmara para qualquer proposta de ataque às trabalhadoras e aos trabalhadores. O Congresso Nacional tem respondido aos interesses da elite brasileira. E Bolsonaro é importante para que isso aconteça.
O que Bolsonaro não aprendeu ainda é ficar calado. Mas, mesmo assim, ele segue tendo alguma utilidade, afinal, como disse o humorista Fábio Porchat, “a única coisa positiva que Bolsonaro fez foi tirar o PT do poder”.


segunda-feira, 2 de março de 2020

Os Parasitas e a Desigualdade Social

Paulo Kobielski 
Licenciado em História, FAPA
Especializações em Filosofia e Sociologia, UFRGS
Organiza junto com Denilson Reis, o Dia do Quadrinho Nacional Alvorada, Dia Nacional do Fanzine Alvorada, Gibifest Alvorada, Mutação POA,

Dirigiu e co-roteirizou o filme “Fanzine Tchê: 30 anos de resistência”


Os Parasitas e a Desigualdade Social

            O cinema no ano de 2019 apresentou alguns filmes que podem nos levar a reflexões interessantes. Três dessas obras me chamaram atenção por tratarem de um tema muito pertinente nas sociedades humanas: a desigualdade social e suas mazelas. “Bacurau” (Brasil), “Os Miseráveis” (França) e “Parasita” (Coreia do Sul) - nenhum deles produzido em Hollywood -, estão ancorados nos preceitos de dominação e da exploração do homem sobre o homem.
                 O filósofo iluminista J. J. Rousseau (1712-1778) no seu clássico “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade social”, publicado em 1775, nos adverte que toda desigualdade se baseia na noção de propriedade particular criado pelo homem e o sentimento de insegurança com relação aos demais humanos. Essa noção de propriedade criou nos primitivos a ideia de acumulação de bens e, consequentemente, superioridade frente aos demais. Essa suposta superioridade foi o estopim para o início dos conflitos entre os homens de uma mesma tribo e, posteriormente, entre cidades e nações. O surgimento da propriedade privada levará necessariamente a uma administração e a criação de uma instituição fundamental: o Estado. Com isso, vimos que, além do advento do poder econômico – a propriedade –, percebemos o surgimento do poder político – o Estado. Que não por acaso, estarão interligados ao longo da história.
                2019. A produção cinematográfica mundial está num crescente, nunca antes visto. Os países periféricos – Brasil, França??? e Coreia do Sul -; se não desenvolvem uma forte indústria no setor – como em Hollywood -, estão produzindo obras que se, não dispõe de grandes recursos, estão cheias de criatividade. Interessante nessas obras é a percepção sobre suas realidades. 

                 Em “Bacurau”( Brasil), longa metragem dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Mendonça, o sertão não vira mar, e sim numa distopia em que seus moradores reagem a dominação imperialista onde Tarantino fica no chinelo. Os Miseráveis, dirigido pelo malês Ladi Ly (França), inspirado no livro clássico de Victor Hugo (1862), retrata o ambiente no subúrbio de Paris (Montfermeil), no final do século XX, e mostra o barril de pólvora étnico e religioso que a França se tornou nas últimas décadas. Realizado em 2018, o longa mostra as condições em que os jovens e crianças de origem africana e da religião muçulmana vivem à margem da sociedade francesa. Onde as batidas policiais – ou a ação das milícias – são uma constante no bairro parisiense. Nada a ver com o Brasil, onde milícias não existem. Isso?
            “Parasita”, ... aquele que “vive à custa alheia por pura exploração”. O filme do cineasta sul-coreano Bong Joon Ho, estica a discussão sobre o tema da desigualdade social, onde o rico é cada vez mais rico, e o pobre, cada vez mais pobre. Dados nos informam a todo momento que a concentração de riqueza mundial aumentou: em 2017, os mais ricos somam 43 pessoas. A fortuna dos bilionários aumentou 12%, enquanto a metade mais pobre teve seu patrimônio diminuído em 11%. No filme, os Park representam as famílias ricas que só podem existir às custas do empobrecimento e da exploração de famílias como a dos Kim – os pobres do subúrbio da metrópole coreana abaixo de tudo, inclusive d’água. Mas que teimam em resistir a tudo o que a vida lhes apresenta.
            E aí, pra onde estamos indo? Da forma em que a economia capitalista se apresenta, na progressiva escalada do mundo dos negócios, o ter se sobrepõe ao ser, e aqueles que podem mais estão sempre pisando naqueles que nada podem. Que esperança podemos ter? Nos três filmes em que assisti, me chamou a atenção a forma em que cada comunidade oprimida pelo sistema se organizou para resistir a imposição da classe dominante.




terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A Glamourização do subemprego e o conceito de Empreendedorismo às avessas: a nova realidade do Mercado de Trabalho Brasileiro.

Sérgio Pires é Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, bacharelando em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Pós-graduando em Gestão Escolar pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul.










A Glamourização do subemprego e o conceito de Empreendedorismo às avessas: a nova realidade do Mercado de Trabalho Brasileiro.

Sempre que utilizo serviços de transporte por aplicativo, tenho o hábito de conversar com os motoristas, conhecer um pouco de suas histórias durante os curtos períodos das viagens. Muito por uma característica pessoal (que é gostar de conhecer e conversar com pessoas das mais diversas origens) a qual me aproxima muito da disciplina que me conquistou durante os anos de minha primeira graduação, a Antropologia, mas principalmente, e não consigo entender quem pensa diferente disso, por percebê-los como trabalhadores iguais a mim, com longas jornadas de trabalho, atendendo uma grande variedade de pessoas e humores. Muito mais do que eu poderia imaginar.


Pois bem, em uma dessas corridas, enquanto conversava com o motorista, ele me falou sobre as vantagens e dificuldades do seu trabalho, e fiquei muito espantado quando me revelou que trabalhava todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados, uma média de 12 a 14 horas, para que pudesse sustentar sua família e as demais despesas da casa.
Fiquei por muito tempo lembrando aquela conversa, até que poucos dias atrás li um relato, em uma rede social, que chamou muito minha atenção, tratava-se de uma postagem de uma mulher jovem, reclamando que o carro do motorista do aplicativo estava com o ar condicionado desligado, o que era um absurdo, uma vez que o serviço estava sendo pago, e que, portanto, deveria atender as necessidades da cliente. Fiz algo que me policio para não fazer, ou seja, ler os comentários, e dentre esses muitos defendendo o motorista, cobrando uma maior empatia, pois não se sabia ao certo qual era o problema que o carro apresentava, porém muitos comentários eram extremamente marcados por uma hierarquização destas novas relações de trabalho, onde cobravam fortemente que os carros de aplicativo deveriam além de manterem o ar condicionado ligados na temperatura de acordo com o gosto do passageiro, oferecer água e doces, e claro, com um atendimento muito atencioso, conversando com o passageiro apenas se esse o consentisse.

Ora, quem utiliza muitas vezes este serviço, sabe que, fora em situações extraordinárias, os valores das corridas são razoavelmente baixos, além disso, todos esses regalos e os custos com combustível, manutenção e o aumento do consumo devido ao ar condicionado, saem do bolso do motorista, e não da empresa A ou B. Ou seja, além de estas pessoas não perceberem os motoristas como trabalhadores iguais a elas próprias, uma vez que sim, quem vende sua força de trabalho pertence à classe trabalhadora, também tentam impor uma hierarquia, onde o motorista é seu vassalo, e eles seus suseranos.

Se antes do surgimento dessas novas ocupações, trabalhadores como porteiros, faxineiros, recepcionistas, garis, entre outras categorias de profissionais, eram totalmente invisíveis para a maioria da população, salvo se estes se desviassem das funções sociais as quais lhe estavam destinadas, o estranhamento e o desconforto ficavam muito evidentes, pois feriam o status quo dominante, agora estas novas funções, que estão descobertas por leis trabalhistas e tem vínculos inexistentes ou muito frágeis, passam a pertencer a essas categorias que não podem ter voz, ficando restritos apenas a cumprir suas funções, ainda que nos dias atuais, essas funções são chamadas de “empreendedorismo” por estas novas correntes de “pensamento” que agora ocupam as altas esferas do poder em nosso país.

Não muito tempo atrás, uma emissora de televisão exibiu uma novela que contava a estória de uma vendedora ambulante de bolos que conseguiu, com o passar dos anos, montar uma grande confeitaria. A partir do sucesso desta novela, a emissora passou a produzir uma série de matérias, em seus programas jornalísticos e de entretenimento, mostrando casos de pessoas que trabalhavam de maneira autônoma, com a produção e venda de artigos alimentícios dos mais variados, com uma narrativa muito vibrante ao mostrar o quanto as pessoas gostavam e eram felizes com seu trabalho.

Um desses casos me pareceu bem curioso, e inclusive foi com uma família aqui do Rio Grande do Sul, onde pai e mãe trabalhavam no negócio da família, mas seus filhos, já maiores, estavam cursando nível superior e não pretendiam dar sequência ao trabalho dos seus pais.

Outro caso curioso, aconteceu há poucos dias, em meio a todos os estragos e transtornos causados pelas fortes chuvas no sudeste, uma foto ficou muito popular nas redes sociais, onde mostrava um entregador destes serviços de tele entrega, com sua bolsa térmica com o nome da empresa nas costas, caminhava em meio à enchente, não sei ao certo qual seu destino, se estava indo para uma entrega ou para sua casa. A foto ficou tão popular que este mesmo cidadão, segundo informações colhidas, recebeu ofertas de emprego.

Como bem sabemos, todo o trabalho é digno, e todos somos trabalhadores, das mais diversas áreas, não pense o leitor mais desavisado, que estou tentando escalonar em níveis de importância o trabalho em si e quem os executa, muito longe disso. Na verdade o que tem me feito pensar muito nesses dias, é a classificação que estão dando para esses trabalhadores: empreendedores.

Segundo o Dicionário Michaelis, empreendedor significa: “Indivíduo que possui capacidade para idealizar projetos, negócios ou atividades; pessoa que empreende, que decide fazer algo difícil ou trabalhoso.”, e eis aqui questões importantes que abordaremos na sequência do texto.

Anos atrás, quando o termo “empreendedor” passou a ser mais utilizado, especialmente na grande mídia, se referia a um estrato social bem definido, uma vez que, aqueles que se enquadravam nessa categoria, realizavam seus empreendimentos, não como sua principal fonte de renda, mas sim a partir do seu excedente de capital, que por sua vez era reinvestido em seus empreendimentos, dando assim rendimento ao empreendedor. Ou seja, podemos tentar representar o que foi dito acima através da fórmula: Capital + Meio de Produção (empreendimento) = Capital. Possuir capital excedente e os meios de produção são peças chaves nesse processo de empreendedorismo, pois se dispõe dos recursos para compra de matéria-prima e mão de obra, não alijando a receita principal, pois o capital investido é capital excedente, ou usando termos populares: “dinheiro fazendo dinheiro”.

Outra questão referente ao significado do termo se encontra no verbo “decidir”, presente em sua definição. Esses trabalhadores e trabalhadoras de fato decidiram começar essas atividades ou foi uma escolha, uma saída perante a falta de oportunidades no mercado formal de trabalho? Abriram mão de vínculo empregatício, plano de saúde empresarial e demais benefícios que os trabalhadores segurados têm de livre e espontânea vontade? Acredito que em pouquíssimos casos sim, mas em sua esmagadora maioria não, pois sem a possibilidade de trabalhar formalmente, muitos são obrigados a trabalharem de modo informal para poder garantir o sustento de suas famílias, mesmo sem ter o mínimo de cobertura por parte do Estado. Dentre estes existem casos de “sucesso”? Poucos, representam a exceção que justifica a regra.

Logo, atribuir a estes trabalhadores, que compulsoriamente foram atraídos para o mercado informal por não conseguirem empregos formais, o termo “empreendedor”, além de muito equivocado por seu significado, é romantizar o subemprego, como uma forma de amenizar o imenso índice de trabalhadores desempregados, uma vez que no cálculo do percentual de desempregados, não se incluem estes trabalhadores, o que produz dados incorretos a respeito da real situação da geração de empregos no país.

Reafirmo que a intenção deste texto não é menosprezar todo e qualquer tipo de trabalho informal realizado por estes trabalhadores, que são verdadeiros sobreviventes em meio ao caos do desemprego, mas sim tentar esclarecer que existem imensas diferenças entre um cenário como este e o empreendedorismo, que em sua essência se manifesta em determinados recortes sociais, que dispõe de muitos recursos, suficientes para investir e não se preocupar se o lucro de seu empreendimento colocará comida na sua mesa ou não, diferentemente dos trabalhadores e trabalhadoras que retiram o sustento de suas famílias do fruto do seu trabalho diariamente, com o risco de ter que escolher entre comer ou repor matéria-prima para trabalhar no dia seguinte.  

sábado, 1 de fevereiro de 2020

O triste e mau avanço dos “homens de bem”

Daniel da Luz Machado - Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.











O triste e mau avanço dos “homens de bem”




                   Na última sexta feira de janeiro pela manhã enquanto abastecia o carro para me deslocar ao trabalho, conversava com o atendente do posto de combustíveis que fica na esquina da minha rua. O rapaz me narrava que constantemente veículos que descem a minha rua, simplesmente para não aguardarem na sinaleira, adentram as dependências do posto, às vezes em velocidades inadequadas, colocando em risco vidas, e o que é pior ofendem com gestos os funcionários que sinalizam contra esse absurdo.

              O triplo homicídio protagonizado por um sujeito, que segundo alguns relatos jornalísticos, em suas redes sociais enfatizava esse comportamento típico do “homem de bem”, os constantes relatos de profissionais que acham normal desconfiar de determinadas pessoas em razão a sua etnia, o velho discurso de “Bandido bom é Bandido morto, se está com pena leva para casa”, “Quem mandou sair com essa roupa estava pedindo...” (Pedindo o quê cara pálida?) Enfim uma série de chavões formatadas por mentes que transcendem a limitação intelectual e se autodefinem como guardiãs de uma moral que na maioria das vezes se solidifica na hipocrisia.

                  A velha dicotomia da pergunta: Quem veio primeiro o ovo ou a galinha? Parece se transpor para análise cotidiana de grande parte da sociedade brasileira. Somos uma sociedade em grande parte doente e revestida desse pseudo título “Homens de bem” e por isso elegemos a presidência da república um sujeito sem o menor preparo humano e intelectual? Ou a eleição desse indivíduo e todas anomalias que o cercam, legitimaram e ampliaram a explicitação dos “Homens de bem” a ponto de ampliarmos nossos temores em função de nossa etnia, nosso gênero , nossa condição social, nossas escolhas religiosas, políticas, ou de quem damos a mão no espaço urbano?

               O avanço dos “Homens de bem” na prática se tornam inversamente proporcionais a “Bondade”, a qual esperávamos que com o desenvolvimento da humanidade pudesse se sobressair. O que infelizmente vemos é um aumento das intolerâncias, uma explicitação das monstruosidades, outrora ocultas, e agora referendadas por alguns políticos descompromissados com a vida e que impulsionam com suas bizarras manifestações essa sensação de tudo é permitido: BASTA SER UM HOMEM DE BEM.