terça-feira, 3 de março de 2020

Só agora, Bolsonaro?




Paulo dos Santos é Cientista Social pela UFRGS, mestrando em Ciência Política pela UFRGS.










Só agora, Bolsonaro?

Desde já, preciso reconhecer que não transito muito bem pela ironia, mas pretendo me utilizar dela no melhor sentido ao longo desse texto.
Iniciar o dia tem sido sempre um exercício. Nunca sabemos o que vamos encontrar ao acessar alguma plataforma de notícias, ou rede social. Acessamos o Twitter na expectativa de encontrar as mais variadas pérolas proferidas por aquele que ocupa a presidência da República.
Nesse dia 18 de fevereiro não foi diferente. Bolsonaro veio a público ofender a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha. O conteúdo sexual na sua fala é vil, repugnante. Reforça o machismo, a misoginia, o sexismo, a cultura do estupro. Jair Bolsonaro, o anti-Messias, é sórdido e canalha. Isso tudo a pouco mais de um ano da sua vitória eleitoral contra Fernando Haddad e Manuela D’Ávila nas eleições presidenciais. Afinal, como expresso no Editorial do Estadão logo na abertura do segundo turno das eleições de 2018, aquela eleição seria “uma escolha muito difícil”.
Mas tudo bem, suas pérolas são bravatas de alguém que “pode amadurecer”, até porque Bolsonaro teria a “chance de ouro de ressignificar a política do Brasil”. Ao menos essa era a aposta de Luciano Huck, o pré-presidenciável do PSDB para 2022.
No entanto, Jair Bolsonaro, dessa vez, foi longe demais. Atacar uma mulher da forma como ele atacou é algo inédito em sua biografia. Os ataques às e aos profissionais do jornalismo já era algo palatável, até porque as constantes bananas que ele tem distribuído à imprensa não é algo tão ruim assim. Mas, ofender uma mulher em pleno exercício da sua profissão, aí o anti-Messias foi longe demais.
Que bom que jornalistas importantes como Eliane Cantanhêde se posicionaram em suas redes sociais demonstrando vergonha com o ocorrido: “Hoje estou com vergonha e raiva do que o presidente do meu país falou. Não é contra uma jornalista, uma mulher, é contra nós, mulheres.”
Dessa vez a ofensa ultrapassa os limites da civilidade e do decoro. Dessa vez! Antes, quando gritávamos que Jair Bolsonaro era um assediador, alguém que usava da atividade parlamentar para reforçar a cultura do estupro, fazíamos sozinhos. Antes, quando dizíamos que ele era misógino, não encontrávamos eco.
É óbvio que a união das mulheres contra Bolsonaro e tudo o que ele representa é mais do que importante, é fundamental! No entanto, por que só agora? Por que Jair Bolsonaro não respondeu por quebra de decoro quando levantou a mão contra Maria do Rosário e a chamou de “vagabunda” no Salão Verde da Câmara dos Deputados? Por que não perdeu o mandato quando disse, da tribuna da Câmara dos Deputados, mais uma vez à Maria do Rosário: “só não te estupro porque você não merece”? Por que Bolsonaro não saiu preso do plenário da Câmara dos Deputados ao elogiar a memória de um dos maiores torturadores do período ditatorial brasileiro durante sessão do golpe da presidenta Dilma, enfurecendo apenas os “ativistas”, como exposto pela BBC em matéria veiculada logo após aquela sessão tenebrosa da Câmara dos Deputados?
Por que os insultos às mulheres de esquerda não geram comoção e arroubos democráticos da imprensa e dos partidos de direita?
Porque Jair Bolsonaro os serve!
A agenda econômica de destruição do Estado imposta por Paulo Guedes é comemorada pelos jornalões e pela direita brasileira. Rodrigo Maia abre as portas da Câmara para qualquer proposta de ataque às trabalhadoras e aos trabalhadores. O Congresso Nacional tem respondido aos interesses da elite brasileira. E Bolsonaro é importante para que isso aconteça.
O que Bolsonaro não aprendeu ainda é ficar calado. Mas, mesmo assim, ele segue tendo alguma utilidade, afinal, como disse o humorista Fábio Porchat, “a única coisa positiva que Bolsonaro fez foi tirar o PT do poder”.


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