terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A Glamourização do subemprego e o conceito de Empreendedorismo às avessas: a nova realidade do Mercado de Trabalho Brasileiro.

Sérgio Pires é Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, bacharelando em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Pós-graduando em Gestão Escolar pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul.










A Glamourização do subemprego e o conceito de Empreendedorismo às avessas: a nova realidade do Mercado de Trabalho Brasileiro.

Sempre que utilizo serviços de transporte por aplicativo, tenho o hábito de conversar com os motoristas, conhecer um pouco de suas histórias durante os curtos períodos das viagens. Muito por uma característica pessoal (que é gostar de conhecer e conversar com pessoas das mais diversas origens) a qual me aproxima muito da disciplina que me conquistou durante os anos de minha primeira graduação, a Antropologia, mas principalmente, e não consigo entender quem pensa diferente disso, por percebê-los como trabalhadores iguais a mim, com longas jornadas de trabalho, atendendo uma grande variedade de pessoas e humores. Muito mais do que eu poderia imaginar.


Pois bem, em uma dessas corridas, enquanto conversava com o motorista, ele me falou sobre as vantagens e dificuldades do seu trabalho, e fiquei muito espantado quando me revelou que trabalhava todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados, uma média de 12 a 14 horas, para que pudesse sustentar sua família e as demais despesas da casa.
Fiquei por muito tempo lembrando aquela conversa, até que poucos dias atrás li um relato, em uma rede social, que chamou muito minha atenção, tratava-se de uma postagem de uma mulher jovem, reclamando que o carro do motorista do aplicativo estava com o ar condicionado desligado, o que era um absurdo, uma vez que o serviço estava sendo pago, e que, portanto, deveria atender as necessidades da cliente. Fiz algo que me policio para não fazer, ou seja, ler os comentários, e dentre esses muitos defendendo o motorista, cobrando uma maior empatia, pois não se sabia ao certo qual era o problema que o carro apresentava, porém muitos comentários eram extremamente marcados por uma hierarquização destas novas relações de trabalho, onde cobravam fortemente que os carros de aplicativo deveriam além de manterem o ar condicionado ligados na temperatura de acordo com o gosto do passageiro, oferecer água e doces, e claro, com um atendimento muito atencioso, conversando com o passageiro apenas se esse o consentisse.

Ora, quem utiliza muitas vezes este serviço, sabe que, fora em situações extraordinárias, os valores das corridas são razoavelmente baixos, além disso, todos esses regalos e os custos com combustível, manutenção e o aumento do consumo devido ao ar condicionado, saem do bolso do motorista, e não da empresa A ou B. Ou seja, além de estas pessoas não perceberem os motoristas como trabalhadores iguais a elas próprias, uma vez que sim, quem vende sua força de trabalho pertence à classe trabalhadora, também tentam impor uma hierarquia, onde o motorista é seu vassalo, e eles seus suseranos.

Se antes do surgimento dessas novas ocupações, trabalhadores como porteiros, faxineiros, recepcionistas, garis, entre outras categorias de profissionais, eram totalmente invisíveis para a maioria da população, salvo se estes se desviassem das funções sociais as quais lhe estavam destinadas, o estranhamento e o desconforto ficavam muito evidentes, pois feriam o status quo dominante, agora estas novas funções, que estão descobertas por leis trabalhistas e tem vínculos inexistentes ou muito frágeis, passam a pertencer a essas categorias que não podem ter voz, ficando restritos apenas a cumprir suas funções, ainda que nos dias atuais, essas funções são chamadas de “empreendedorismo” por estas novas correntes de “pensamento” que agora ocupam as altas esferas do poder em nosso país.

Não muito tempo atrás, uma emissora de televisão exibiu uma novela que contava a estória de uma vendedora ambulante de bolos que conseguiu, com o passar dos anos, montar uma grande confeitaria. A partir do sucesso desta novela, a emissora passou a produzir uma série de matérias, em seus programas jornalísticos e de entretenimento, mostrando casos de pessoas que trabalhavam de maneira autônoma, com a produção e venda de artigos alimentícios dos mais variados, com uma narrativa muito vibrante ao mostrar o quanto as pessoas gostavam e eram felizes com seu trabalho.

Um desses casos me pareceu bem curioso, e inclusive foi com uma família aqui do Rio Grande do Sul, onde pai e mãe trabalhavam no negócio da família, mas seus filhos, já maiores, estavam cursando nível superior e não pretendiam dar sequência ao trabalho dos seus pais.

Outro caso curioso, aconteceu há poucos dias, em meio a todos os estragos e transtornos causados pelas fortes chuvas no sudeste, uma foto ficou muito popular nas redes sociais, onde mostrava um entregador destes serviços de tele entrega, com sua bolsa térmica com o nome da empresa nas costas, caminhava em meio à enchente, não sei ao certo qual seu destino, se estava indo para uma entrega ou para sua casa. A foto ficou tão popular que este mesmo cidadão, segundo informações colhidas, recebeu ofertas de emprego.

Como bem sabemos, todo o trabalho é digno, e todos somos trabalhadores, das mais diversas áreas, não pense o leitor mais desavisado, que estou tentando escalonar em níveis de importância o trabalho em si e quem os executa, muito longe disso. Na verdade o que tem me feito pensar muito nesses dias, é a classificação que estão dando para esses trabalhadores: empreendedores.

Segundo o Dicionário Michaelis, empreendedor significa: “Indivíduo que possui capacidade para idealizar projetos, negócios ou atividades; pessoa que empreende, que decide fazer algo difícil ou trabalhoso.”, e eis aqui questões importantes que abordaremos na sequência do texto.

Anos atrás, quando o termo “empreendedor” passou a ser mais utilizado, especialmente na grande mídia, se referia a um estrato social bem definido, uma vez que, aqueles que se enquadravam nessa categoria, realizavam seus empreendimentos, não como sua principal fonte de renda, mas sim a partir do seu excedente de capital, que por sua vez era reinvestido em seus empreendimentos, dando assim rendimento ao empreendedor. Ou seja, podemos tentar representar o que foi dito acima através da fórmula: Capital + Meio de Produção (empreendimento) = Capital. Possuir capital excedente e os meios de produção são peças chaves nesse processo de empreendedorismo, pois se dispõe dos recursos para compra de matéria-prima e mão de obra, não alijando a receita principal, pois o capital investido é capital excedente, ou usando termos populares: “dinheiro fazendo dinheiro”.

Outra questão referente ao significado do termo se encontra no verbo “decidir”, presente em sua definição. Esses trabalhadores e trabalhadoras de fato decidiram começar essas atividades ou foi uma escolha, uma saída perante a falta de oportunidades no mercado formal de trabalho? Abriram mão de vínculo empregatício, plano de saúde empresarial e demais benefícios que os trabalhadores segurados têm de livre e espontânea vontade? Acredito que em pouquíssimos casos sim, mas em sua esmagadora maioria não, pois sem a possibilidade de trabalhar formalmente, muitos são obrigados a trabalharem de modo informal para poder garantir o sustento de suas famílias, mesmo sem ter o mínimo de cobertura por parte do Estado. Dentre estes existem casos de “sucesso”? Poucos, representam a exceção que justifica a regra.

Logo, atribuir a estes trabalhadores, que compulsoriamente foram atraídos para o mercado informal por não conseguirem empregos formais, o termo “empreendedor”, além de muito equivocado por seu significado, é romantizar o subemprego, como uma forma de amenizar o imenso índice de trabalhadores desempregados, uma vez que no cálculo do percentual de desempregados, não se incluem estes trabalhadores, o que produz dados incorretos a respeito da real situação da geração de empregos no país.

Reafirmo que a intenção deste texto não é menosprezar todo e qualquer tipo de trabalho informal realizado por estes trabalhadores, que são verdadeiros sobreviventes em meio ao caos do desemprego, mas sim tentar esclarecer que existem imensas diferenças entre um cenário como este e o empreendedorismo, que em sua essência se manifesta em determinados recortes sociais, que dispõe de muitos recursos, suficientes para investir e não se preocupar se o lucro de seu empreendimento colocará comida na sua mesa ou não, diferentemente dos trabalhadores e trabalhadoras que retiram o sustento de suas famílias do fruto do seu trabalho diariamente, com o risco de ter que escolher entre comer ou repor matéria-prima para trabalhar no dia seguinte.  

sábado, 1 de fevereiro de 2020

O triste e mau avanço dos “homens de bem”

Daniel da Luz Machado - Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.











O triste e mau avanço dos “homens de bem”




                   Na última sexta feira de janeiro pela manhã enquanto abastecia o carro para me deslocar ao trabalho, conversava com o atendente do posto de combustíveis que fica na esquina da minha rua. O rapaz me narrava que constantemente veículos que descem a minha rua, simplesmente para não aguardarem na sinaleira, adentram as dependências do posto, às vezes em velocidades inadequadas, colocando em risco vidas, e o que é pior ofendem com gestos os funcionários que sinalizam contra esse absurdo.

              O triplo homicídio protagonizado por um sujeito, que segundo alguns relatos jornalísticos, em suas redes sociais enfatizava esse comportamento típico do “homem de bem”, os constantes relatos de profissionais que acham normal desconfiar de determinadas pessoas em razão a sua etnia, o velho discurso de “Bandido bom é Bandido morto, se está com pena leva para casa”, “Quem mandou sair com essa roupa estava pedindo...” (Pedindo o quê cara pálida?) Enfim uma série de chavões formatadas por mentes que transcendem a limitação intelectual e se autodefinem como guardiãs de uma moral que na maioria das vezes se solidifica na hipocrisia.

                  A velha dicotomia da pergunta: Quem veio primeiro o ovo ou a galinha? Parece se transpor para análise cotidiana de grande parte da sociedade brasileira. Somos uma sociedade em grande parte doente e revestida desse pseudo título “Homens de bem” e por isso elegemos a presidência da república um sujeito sem o menor preparo humano e intelectual? Ou a eleição desse indivíduo e todas anomalias que o cercam, legitimaram e ampliaram a explicitação dos “Homens de bem” a ponto de ampliarmos nossos temores em função de nossa etnia, nosso gênero , nossa condição social, nossas escolhas religiosas, políticas, ou de quem damos a mão no espaço urbano?

               O avanço dos “Homens de bem” na prática se tornam inversamente proporcionais a “Bondade”, a qual esperávamos que com o desenvolvimento da humanidade pudesse se sobressair. O que infelizmente vemos é um aumento das intolerâncias, uma explicitação das monstruosidades, outrora ocultas, e agora referendadas por alguns políticos descompromissados com a vida e que impulsionam com suas bizarras manifestações essa sensação de tudo é permitido: BASTA SER UM HOMEM DE BEM.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Faz arminha agora!



Letícia Roxo

Licenciada em História pela FAPA











FAZ ARMINHA AGORA!


                   Hoje pela manha, lendo o jornal, fiquei chocada com tamanha violência ocorrida neste final de semana, na zona sul de PoA. Analisando friamente estou nada a menos que, revoltada.
             Uma família num domingo de sol, compartilhando bons momentos juntos se envolve num acidente de carro e para a surpresa de todos são assassinados: triplo homicídio qualificado sem chance de defesa por um cidadão de bem que fugiu.
                 A notícia nos possibilita fazer algumas reflexões. Como as pessoas estão se sentindo “empoderadas” com uma arma. O quão fútil é a vida humana para alguns. Como a certeza da impunidade faz cidadãos de bem usarem suas armas com a desculpa de defender a vida e a propriedade privada sem medo ou vergonha.
               Pensando sobre este caso me recordo de Thomas Hobbes quando fala da maldade humana. Tô começando a me convencer que o homem é mau por natureza mesmo. Burro não! Mau. Pois, por muito tempo tentou e ate conseguiu inibir sua maldade, afinal era moralmente condenado.
                    Atualmente, egoísta e dominador está disposto a toda e qualquer crueldade para impor sua vontade, desejo, expressar sua decepção e frustração. Faz isso porque se sente protegido por um governo que em seu discurso popular legitima essa conduta com chavões como “bandido bom é bandido morto” ou então com imagens como a “arminha” feita com as mãos que se popularizou nos últimos tempos.
                        No entanto, quando o governo fascista brasileiro da o aval a esses cidadãos a usarem suas armas para “defender” a vida ou a propriedade minimiza a vida de negros, índios, mulheres e LGBT’s e facilita o porte e a posse de armas, inclusive aquelas outrora exclusivas do exército, esse governo é tão culpado quanto o assassino.
                        Rousseau dizia que estávamos no “estado selvagem”. O que diria dos dias de hoje? Não consigo pensar em outra palavra a não ser esta mesmo: SELVAGEM. Selvagem é este governo. Selvagem são estas pessoas que não usufruem de seu poder de pensar socialmente, mas compram um discurso pronto e que na maioria das vezes nem os representa. São soldados a serviço deste governo.
                          Por fim, me questiono. Quem é o culpado e de quem é a responsabilidade? Obvio que o culpado é o executor que matou. Ele puxou o gatilho e tem que pagar por seus crimes.
                     Mas que tenhamos consciência que o governo é responsável (moral) por esses crimes. E deve ser punido tanto quanto o assassino.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O dinheiro de plástico e a falta de percepção de classe

Daniel da Luz Machado - Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.











O dinheiro de plástico e a falta de percepção de classe



                     Nos dias 20 e 22 de dezembro do corrente ano estive em dois eventos até certo ponto distantes, porém que interligaram minha reflexão diante de um tema precioso que é o caminho declinante que se apresenta para nossa educação pública a níveis fundamental e médio.
                      O primeiro evento que compareci foi uma assembleia geral dos trabalhadores da educação pública estadual na cidade de São Leopoldo no dia 20 de dezembro promovido pelo sindicato da categoria CPERS, onde a categoria definiu os rumos da atual greve que realizam na tentativa de não terem mais os seus direitos vilipendiados de forma grotesca pelos ataques do neoliberalismo da União e do Estado capitaneados e afinados pelo projeto de destruição do funcionalismo organizado pelo Ministro Paulo Guedes .

                  Nesse evento, o semblante dos educadores desnudava-se diante dos meus olhos com um misto de apreensão, perplexidade, cansaço e até desânimo por parte de alguns que perceberam que a árdua missão de resistência parece ligar-se através do piloto automático, visto que os governantes atuais deixam bem claro que não cederão ao bom senso e ao respeito que os educadores e usuários da educação pública merecem.

             O segundo evento foi a solenidade de formatura (que já estava agendada e contratada pelos alunos dos 3º anos do ensino médio) do Instituto Estadual Nossa Senhora do Carmo em Alvorada, ainda que o ano letivo não esteja encerrado a equipe diretiva participou da solenidade junto com os alunos e seus familiares e convidados e as palavras da sua Diretora foram repleta de afeto para com os alunos e a comunidade escolar, porém não deixou passar a oportunidade de demonstrar seu engajamento com a luta e todos os sofrimentos que os educadores estaduais estão enfrentando. Que palavras!!! fico a pensar diante da disposição de quem já está se aposentando, a explicitação da coragem de abordar um tema com tamanho comprometimento. Era festa para os jovens, ela foi amável, mas não deixou de demonstrar o espírito aguerrido que parece ter abandonado uma outra parte dos educadores públicos, que mesmo diante do aviltamento de seus direitos, parecem estar inertes ao seu contexto.

              Conversando com outros colegas em outras ocasiões, concluímos que alguns educadores não se enxergam como trabalhadores. Parecem não entender que vendem sua força de trabalho, ainda que intelectualizada, não conseguem compreender os mecanismos nefastos do neoliberalismo e essa ausência de compreensão é vital para que migalhas como “crédito” “cartões” (dinheiro de plástico) que dão acesso a TV em 12 vezes, ou pacote de férias em 10 vezes etc. não lhes outorga o acesso a elite burguesa, alguns sequer acessam a classe média, mas mesmo assim em função de prerrogativas de consumo abstêm-se de participarem da greve. É bem verdade que alguns por pressão financeira ou ameaças de perdas referentes a convocações, aposentadorias não tem como baterem de frente com direções perseguidoras e reprodutoras do status quo dominante, mas boa parte o que não quer é abrir mão das férias programadas, ou da pseudo ideia de que o problema da classe não os atinge.

              O discurso da extrema direita raivosa e ignorante é o tal “MARXISMO CULTURAL” tomando conta da educação , mas como repetir os conceitos marxistas se sequer a consciência de classe parece fazer algum sentido para alguns educadores que insistem em manter o comportamento de gado rumando para o abatedouro.

                   Muitas derrotas nos movimentos grevistas não são originadas pelos opressores e sim pela apatia dos que deveriam estar conosco nas trincheiras.

sábado, 21 de dezembro de 2019

A velha crueldade de Eduardo Leite

Paulinho dos Santos é Cientista Social formado pela UFRGS ,, Mestrando em Ciência Política pela UFRGS e Militante de Causas Sociais.














Não existe nada mais velho, do que aquele que se reivindica novo para defender as ideias mais antiquadas e cruéis que existem.

O governador Eduardo Leite (PSDB) aprovou, com ampla maioria, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul o Projeto de Lei Complementar nº. 503/2019 – PLC 503. Esse projeto não é um simples projeto, mas sim, uma reforma da previdência ainda mais drástica do que a aprovada no Congresso Nacional.

Leite usou da sua base parlamentar no Legislativo gaúcho para atacar diretamente a vida das trabalhadoras e dos trabalhadores do Estado, sem nenhum diálogo com aquelas e aqueles que fazem o serviço público acontecer.

Nisso, não há nada de novo. Antônio Britto acabou com carreiras, privatizou setores estratégicos para o Estado e desestimulou a economia gaúcha; Yeda Crusius, com sua famigerada política de “déficit zero” arrochou a vida dos trabalhadores; Sartori passou quatro anos parcelando salários, sem sequer fazer a reposição inflacionária anual no salário dos que trabalham, e muito, para o desenvolvimento do Estado. Eduardo Leite prometeu “tirar a bunda da cadeira” e fazer gestão, pois segundo ele “dinheiro há, o que falta é gestão”.

O que há em comum entre eles? A mesma cartilha neoliberal. E Paulo Guedes, o Ministro da Economia de Bolsonaro, é o seu malvado favorito, pois personifica o discurso de ataque ao serviço público e à política econômica de indução à economia.

Eles têm horror ao público. Eles têm aversão a quaisquer tipos de políticas que possam usar do Estado para regular e induzir o desenvolvimento socioeconômico. O neoliberalismo deles é uma paixão exacerbada ao mercado. Sua ideologia é conduzida pelo mais puro “mercadismo”. E eles não têm pudor algum em defender isso e acusar os seus adversários de estimularem uma “guerra ideológica”.

Na noite do dia 18 de dezembro de 2019, Eduardo Leite aprovou o confisco da aposentadoria dos servidores públicos. Professoras, professores, policiais e demais servidores aposentados terão um valor de 14% ou mais confiscados do seu salário. Aqueles que se aposentaram com um salário mínimo terão que devolver mensalmente ao cofres do Estado o percentual de 9%.

Eduardo Leite é cruel ao imputar aos servidores públicos a culpa da desorganização do caixa do Estado do Rio Grande do Sul. E é ainda mais cruel ao cobrar dessas trabalhadoras e trabalhadores um esforço diferenciado do que cobra dos mais poderosos. Aos ricos são oferecidas as mais diversas isenções fiscais, desonerações, parcelamentos e perdão de dívidas, aos servidores públicos taxas, cobranças e confiscos.

Tudo isso é parte de uma mesma ideologia que vem tomando conta do país desde 2016. As mais diversas reformas que atacam direitos já foram apresentadas e aprovadas, o resultado tem sido o aumento do desemprego, a desvalorização do salário, a queda no poder de compra e a retração da economia. Se essas são as políticas que eles têm a nos oferecer, contra ela (a ideologia neoliberal) nós iremos nos opor!

Nossas bancadas de deputados e deputada estaduais, bem como as bancadas de vereadores e vereadoras nos nossos municípios, estão firmes na luta contra todos esses projetos que atacam o serviço público. Estamos nas ruas e nos parlamentos, ao lado das trabalhadoras e trabalhadores, em defesa do nosso povo, afinal, atacar o servidor público é atacar indiretamente todas as pessoas que precisam do Estado e de suas políticas públicas. No fim, quase todos sofrem, exceto os ricos.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A precarização exacerbada do funcionalismo público.

Daniel da Luz Machado - Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade São Judas Tadeu e Bacharelando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.











A precarização exacerbada do funcionalismo público



         O neoliberalismo ,à brasileira, há muito intenta a total implosão do contexto de bem estar social. Passaram governos um pouco mais a esquerda e outros um pouco mais a direita, porém ambos a seu modo, privatizando mais ou menos, ainda conseguiram garantir um mínimo de dignidade ao funcionalismo e por via de regra a garantia de uma prestação de serviços razoável, com falhas, porém com acertos que contemplassem as camadas mais pobres que são as que mais precisam dos serviços públicos.

         Com a chegada ao poder de uma extrema direita raivosa, que fez da bandeira da luta contra corrupção o seu simbolismo maior, embora em termos de corrupção a “Nova corte e seu séquito de seguidores” façam corar até quem tirava pirulito de criança, nunca a agenda dos neoliberais brasileiros obtivera tanta vantagem na sua implementação.

         O governo estadual do RS completamente afinado com o Governo Federal de Bolsonaro e capitaneado pela batuta do Ministro Paulo Guedes à serviço do grande empresariado (Que é quem realmente manda no País) acelera de uma forma quase distópica a destruição da estrutura pública.

         A mão invisível do mercado já havia precarizado de forma acentuada as relações formais de trabalho na iniciativa privada, com a falácia dos discursos inconsistentes dos famigerados empreendedorismo e meritocracia, o processo de “uberização” das relações profissionais coloca todos no “informal” abrindo mão de direitos tão dolorosamente conquistados no curso da história.

         O Governador Eduardo Leite, eleito no vácuo da falta de politização e consciência de classe de grande parte da população, apresenta uma agenda que não apenas pune os cidadãos que dependem dos serviços públicos, mas também precariza e humilha servidores ativos e inativos. Creio que não haverá mercado informal suficiente para fornecer o famoso “bico” aos servidores que excetuando os privilegiados dos poderes judiciário e legislativo e alguns do primeiro escalão do executivo, irão precisar para complementar as suas combalidas receitas que muito longe passam da valorização e dos reajustes necessários.

         Os ataques do Jovem Governador (de velhas práticas) ao funcionalismo transcende ao menor aspecto de empatia com quem está na base e tem as menores remunerações. “O leite oferecido é insalubre” e ao submeter os servidores com menores salários ao esdruxulo pacote de ajuste fiscal quem realmente perderá é a população mais pobre que depende desses serviços, além dos pequenos comerciantes que sentirão no fluxo de caixa o caos dessas medidas abusivas, pois certamente o consumo de muitos passará por uma reestruturação, pois a prioridade serão as contas básicas e alimentação.

         Enquanto isso os ricos sonegadores gozam de imunidade na hora do ajuste e me vem a memória a leitura de duas obras excelentes para o entendimento dessa conjuntura que são: “Ricos, Podres de Ricos” e “A Riqueza Desmistificada” ambas do Professor da UFRGS Antonio David Cattani que ao elucidar nuances do processo de acumulação de riquezas , me faz entender a quem Paulo Guedes serve e por consequência a quem “A família real bolsonarista” e o Governador Eduardo Leite também procuram servir.

         E a grande parte do funcionalismo gaúcho, se não tiverem outro ofício para reforçar o orçamento doméstico, em um período não muito distante estarão fadados a extinção.

Referências Bibliográficas:

CATTANI, Antonio David. "Ricos e Podres de Ricos". Ed. Tomo Editorial, Porto Alegre - RS. 2014.

CATTANI, Antonio David. "Desmistificando a Riqueza". Ed. Marca Visual. Porto Alegre - RS. 2013.


terça-feira, 22 de maio de 2018

É hora da esquerda reconquistar!





Paulinho dos Santos é Acadêmico de Ciências Sociais pela UFRGS e Militante de Causas Sociais.






É hora da esquerda reconquistar!


Como queremos reconquistar a classe trabalhadora com a arrogância das elites?

Essa é uma pergunta que tenho me feito ultimamente, sobretudo com o resultado das políticas neoliberais impostas pelo governo Temer, sem a chancela do eleitorado, que tem levado a uma piora das condições de vida do povo brasileiro.

Michel Temer chegou à presidência da República após um golpe de Estado, planejado e conduzido pelo seu interlocutor na Câmara dos Deputados, deputado Eduardo Cunha, presidente daquela Casa naquele momento, levando consigo um programa de governo que não havia sido apresentado aos eleitores na eleição de 2014, por isso, um projeto não-eleito.

Essa condição configura o golpe que foi levado a cabo no Brasil em 2016: a retirada de uma presidenta eleita do poder, sem que ela tivesse cometido crime tipificado na legislação brasileira, promovido pelos partidos de oposição em conluio com setores dos partidos da base aliada descontentes com o governo, alavancado pela imprensa nacional e referendado pelo Poder Judiciário; além disso, a substituição do chefe do Poder Executivo se deu em conjunto com a troca do projeto político eleito em 2014, juntamente com uma completa alteração da base aliada que passou a compor o novo governo (os partidos da oposição ingressaram no governo e os partidos do governo migraram para a oposição).

Romero Jucá, senador do MDB pelo estado de Roraima, ferrenho apoiador de Michel Temer, classificaria o golpe como “um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”.

Ora, o discurso combativo ao PT, ao comunismo (sim, aquele discurso ridículo dos tempos da Guerra Fria ainda existe em pleno século XXI) e à corrupção, promovido pelas elites, ganhou a classe média e alguns setores entre os trabalhadores.

Erros de avaliação do governo petista, sobretudo em relação à economia (não esqueçamos o ajuste fiscal promovido pelo governo Dilma logo após a eleição de 2014, a mais acirrada dos últimos tempos), fizeram com que o governo passasse a ser mal avaliado inclusive entre as classes populares. Assim, o “grande acordo”, de Jucá, para a viabilização do golpe, provavelmente incluiria a população não ligada a movimentos sociais e partidos políticos.

Mesmo com focos de resistência por parte de militantes de alguns dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais, embora intimidados por algumas discordâncias com o governo, o golpe foi consumado.

E é inegável que um novo governo, seja ele resultado de um processo eleitoral ou fruto de uma ação golpista, sempre carrega consigo as esperanças daqueles que, de alguma forma, o apoiaram.

Jucá e os seus esperavam “estancar essa sangria” (se referindo às investigações de corrupção contra os políticos, por parte da Polícia Federal), a elite empresarial esperava pelas reformas trabalhista e previdenciária. Já as classes populares, paradoxalmente, esperavam o aumento do número de empregos e a melhoria do poder de compra.

A tentativa de atender aos primeiros fez com que os políticos dos partidos aliados de Temer fossem blindados pelo novo governo e as elites tivessem seus interesses, senão completamente, quase que integralmente atendidos.

O resultado dessas ações restringiu os direitos trabalhistas, piorou os índices econômicos, aumentou o número de desempregados, levou famílias à miséria, nos fez novamente conviver com meninos e meninas pedindo dinheiro nos sinais e nas paradas de ônibus... Ou seja, os duros anos da década de 1990 têm vindo figurar em nossa história que parecia ser de ascensão econômica e social do século XXI.

Mais uma vez os trabalhadores e as trabalhadoras foram enganados pelas elites. Mais uma vez, os poderosos do Brasil venderam um país e lhes entregaram outro. E isso acontece, exatamente, porque o seu projeto político é um projeto que exclui os mais pobres, não por considerar sua condição social como produto de um processo histórico de exclusão, mas por taxá-los como “vagabundos” diante de uma pseuda meritocracia natimorta em nossa sociedade tão desigual.

Então, refaço a questão: como queremos reconquistar a classe trabalhadora com a arrogância das elites?

A que me refiro?

Ora, diante desse cenário de piora das condições de vida das classes populares, tem sido comum encontrarmos militantes do Partido dos Trabalhadores, ou dos demais partidos de esquerda, ou dos movimentos sociais, dizendo, com certo ar de superioridade, frases de deboche àqueles que, por algum motivo, apoiaram a queda da presidenta Dilma.
Temos visto crescer o número de “profetas do acontecido” dizendo, do alto de sua sapiência, frases no mais asqueroso sentido do “eu avisei”, “agora chora”... Ou, até mesmo, interjeições como “ué?!”.

Não são essas frases, esse jogo de uma quase aposta pelo pior, que vai fazer com que reconquistemos os trabalhadores e as trabalhadoras que, encantados por uma promessa de superação da corrupção e da melhora das condições de vida, defenderam o fim dos governos petistas.

A esquerda brasileira precisa ser propositiva e não tripudiar sobre aqueles que têm sofrido os mais duros ataques do governo de Michel Temer e dos tucanos. O PT precisa apresentar um projeto sério à nação, reconhecendo todas as suas políticas positivas ao longo de 13 anos de governos Lula e Dilma, denunciar o fim dessas políticas e, com isso, a destruição do Estado brasileiro e dos mais pobres, e apresentar um plano que vá além do que já fora, outrora, conquistado.

É hora de sermos ousados! Só assim vamos reconquistar aqueles que fazem parte do nosso campo, caso contrário, afastaremos ainda mais aqueles que um dia puderam sonhar com as políticas de inclusão social e econômica implementadas por Lula e Dilma.